Sem dizer palavra, ela levantou um pouco o fragmento, a fim de podermos vê-lo. Todos o tínhamos visto, ainda que ela aparentasse ignorá-lo. À medida que crescia o medo, tornávamo-nos mais cautelosos. Corríamos como loucos; populações inteiras em fuga. Algo novo e poderoso havia rompido a vida, homens e mulheres apenas pensavam em salvar-se, abandonando casas, trabalhos, negócios, tudo, mas não o comboio onde seguíamos, o maldito aparelho do qual já nos sentíamos parte, como um assento, continuava com a regularidade de um relógio. Por decência, por um miserável respeito humano, ninguém tinha coragem de reagir. Os comboios, como se parecem com a vida! Faltavam duas horas. Duas horas mais tarde, à chegada, saberíamos a sorte que nos esperava a todos. Duas horas.
Uma hora e meia. Uma hora. Já descia a obscuridade. Vimos ao longe as luzes da nossa cidade, reverberantes, um halo amarelo, voltou a dar-nos um pouco de coragem. Por pouco tempo. Ainda que o comboio se movesse, a estação estava …