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Ao próximo

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O sol toca-te o corpo, a jaula de metal retorcido reflecte a luz dourada. Sem água para amaciar lábios quebrados, sem sombra, em breve um último respirar. Sem palavras, sem poesia, sem família a lamentar a tua breve passagem, as últimas palavras são engolidas sem que o som chegue ao seu destino.

És a próxima vítima da natureza, mas segues de bom grado.

Eternidade

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Na escuridão, sem esperança. Tacteia para encontrar a saída, cai-lhe cada passo, traído pelo pensamento, conduzido pelo medo. De repente, perde o chão. Cai na água. Entrega-se ao destino.

direcção ausente

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Ela segue as direcções por debaixo dos quadrados com fotografias de uma mulher. Ela deita-se, aquece os dedos. Não consegue deixar de pensar no que a sua mãe disse acerca do toque.

Não farias isso. O que farias num apartamento vazio? Trepavas as paredes? Roçavas-te na mobília? Nada aqui parece ter mudado, e contudo nada mudou. Nada foi movido, mas há mais espaço. E à noite a luz não está ligada.

Ouves passos nas escadas, mas não são os mesmos. Nem a mão que coloca um peixe no prato. Algo aqui não está a começar à hora do costume. Algo aqui não está a acontecer como devia. Alguém esteve a aqui, desapareceu subitamente e agora está teimosamente ausente.

Tempo III

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Encostado, vejo as sombras subir, fora do tempo, desfocadas. Um mundo, e eu era parte; eu, aparte, imutável e feito livre. "Como pude deixar o mundo?" Morre o corpo, passa o tempo como cem navios rio acima.

Tempo II

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O tempo deixa o momento para trás, ansioso por temperar e amadurecer, por beijar. Fora da luz, nas extremidades dos Aqui & Agoras mortos, cego e suave, guardo apontamentos com milhares de dias. Rio-me com o momento, e deixo-o seguir.

Aconteceu

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Sem dizer palavra, ela levantou um pouco o fragmento, a fim de podermos vê-lo. Todos o tínhamos visto, ainda que ela aparentasse ignorá-lo. À medida que crescia o medo, tornávamo-nos mais cautelosos. Corríamos como loucos; populações inteiras em fuga. Algo novo e poderoso havia rompido a vida, homens e mulheres apenas pensavam em salvar-se, abandonando casas, trabalhos, negócios, tudo, mas não o comboio onde seguíamos, o maldito aparelho do qual já nos sentíamos parte, como um assento, continuava com a regularidade de um relógio. Por decência, por um miserável respeito humano, ninguém tinha coragem de reagir. Os comboios, como se parecem com a vida! Faltavam duas horas. Duas horas mais tarde, à chegada, saberíamos a sorte que nos esperava a todos. Duas horas.

Uma hora e meia. Uma hora. Já descia a obscuridade. Vimos ao longe as luzes da nossa cidade, reverberantes, um halo amarelo, voltou a dar-nos um pouco de coragem. Por pouco tempo. Ainda que o comboio se movesse, a estação estava …

E real

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Recordas-te da Alice no país das maravilhas, quando lhe explicam que ela existe porque o rei a sonha. Se o rei desperta, evapora-se como uma vela soprada. “Mas é verdade que existo”, diz Alice a chorar. Está também Platão, a sua alegoria da caverna. Está Descartes, e a possibilidade de que tudo não seja mais que um jogo.

Talvez no final apenas tenha sonhado que caminho junto a ti, se sonho que te amo, se sonho que sou eu que sonho que existes, que despertará no final do sonho? Se não existe nada mais que eu, não existe nada de mim.