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Manual de instruções

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Começa por partir os espelhos da tua casa, deixa cair os braços, olha vagamente a parede, esquece-te. Canta, escuta por dentro. Ouves (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem, com silhuetas seminuas, penso que estarás bem encaminhada, ouves um rio por onde passam pequenos barcos pintados de verde e negro, ouves um sabor de pão, um toque de mãos, uma sombra de um felino.

Amanhecer

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Como uma névoa, como uma chama branca, dona de si mesma, do seu nascimento, do seu pulso. Um pouco mais além e mais além até tocar as rochas. Lenços de sol sobre a cauda; chuva de quartzo; silenciosa.

Um movimento denso; mergulha-o no seu corpo. Profundo. Renasce. Lento e luminoso. Um pouco mais além, mais além, estremece o toque. Suavemente, os troncos cedem e vão-se estendendo sobre a erva; inunda-se o amanhecer. Pesam menos as sombras, erguem-se os corpos. Uma chama dupla, um odor de rochas húmidas.

Regressa

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Escrever é procurar a calma e, às vezes, encontrá-la. É o regresso ao lugar. Acontece o mesmo com a leitura. Quem escreve ou lê de verdade, isto é, para si mesmo, regressa à casa onde se sente. As pessoas que nunca escrevem nem lêem, ou o fazem por obrigação, estão sempre fora do seu lugar, ainda que tenham muitos. São pobres, e empobrecem a vida.

Percepção

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Se ver ou ouvir é deixar de ser para conhecer, seria absurdo dizer que vejo com os meus olhos ou que ouço com os meus ouvidos, já que os meus olhos, os meus ouvidos, são também seres do mundo; são instrumentos de excitação corpórea, não da percepção em si. Os meus olhos vêem, a minha mão toca; mas estas expressões ingénuas não traduzem a verdadeira experiência.

A sensibilidade devolve-me aquilo de que a alimento. Ao olhar o azul do céu, não sou um ser cósmico, não o possuo em pensamento, nem elaboro uma ideia de azul que me revela o seu segredo; abandono-me a ele, entro no mistério, torno-me céu eu também nesse azul ilimitado.

Ânimo

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Hoje sinto-me apenas como um navegante sem embarcação, num lago, igual aos seus líquenes e aos seus peixes, sereno, ansioso pela tarde em que te aproximes e te olhes, te vejas ao olhar-me.

Silêncio

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Olhando a cidade, escuto o ruído com toda a atenção, cada lamento cada grito cada rumor, olho para além das luzes, paro onde tremem as sombras, desprende-se um hálito do céu, inclino-me sobre o abismo, procuro entre os arbustos com calma, olhos nos olhos com o crepúsculo, com o sopro do vento, música, o prazer o pensar o sentir, estás aqui, encontro-te em mim ao fechar os olhos, na quietude no rio no voo, escrevo-te para onde estás, onde me encontro eu mesmo.

Saboreei-te

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Desejei ser aquela peça de aço inoxidável quando levou a colher de sopa aos lábios. Teria trocado todo o sangue do meu corpo por meio litro de caldo vegetal. Tive inveja do pãozinho. Vi-a partir e untar cada pedaço com manteiga, e o prazer dos seus dentes.

As batatas, o aipo, tudo passou pelas suas mãos. Ao comer a sopa, filtrei-a para saborear a sua pele. Tinha estado ali, devia ter caído algo dela. Encontrava-a no azeite. Soube, quando lhe perguntei o que tinha a sopa, que havia suprimido o ingrediente fundamental.