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Aqueles que tudo são

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Liberto-me do movimento circular da minha mente e suspendo-me livre do silêncio. Criatura além do tempo e da morte, da minha própria eternidade, vejo o centro. Escapou-me e o pequeno ego está morto. Saí do universo em que acreditei, cresci sem nome nem medida.

Cala-se a mente na luz e deleita-se no compasso de um sereno bater de coração. O meu sentir enlaçado pelo toque, os sons, a visão; o meu corpo é um ponto entre brancos infinitos. Contigo, sou prazer puro. Contigo, um: somos aqueles que tudo são.

Anatomia

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Para além da dor e do prazer, a carne que fala numa linguagem de sombras e cores difusas, a carne convertida em paisagem, em terra, em acontecimento, em oceano, em animal e em evidência. Espreitando a carne tão aberta e próxima, vejo ali a vida: o real.

O cabelo às vezes tão perto e essa face onde o toque confunde o dia com a noite, fresca bela vida, a metade da cama onde os membros se enlaçam enquanto a língua passa como uma flor carnívora entre os dentes.

A voz entrecortada do amar, saciando-te, saciando-se, saboreando. Os mundos, os ossos que seguram o corpo, essa fome, essa felicidade como o céu aberto. A terra gira, a carne aquece, muda a paisagem, passam as horas.

A caminhar

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Caminho passo a passo até ao destino do sentir e, ao caminhar, cuido de mostrar a emoção exposta na montra do meu peito. A minha pele, o meu rosto, a minha voz, o meu sexo, os meus actos na exacta medida da palavra murmurada e do silêncio que nos descrevem.

Um acto intemporal em que observo o brilho opalescente da luz que nos entra em casa sobre a tua face.

Um incêndio

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Aquele que diga a primeira palavra deixará cair o primeiro vaso, aquele que golpeie o seu assombro com violência verá aparecer o fogo nos seus cabelos, aquele que ria em voz alta será o primeiro a guardar silêncio, aquele que desperte antes de tempo surpreenderá o seu corpo entre as árvores; e o mar, como algo interrompido, volta a ouvir-se ao longe e na sua respiração escutamos outra vez o ruído daquela porta que bate empurrada pelo vento.

Espelho

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Sob a luz de uma lua parecida com a nudez de algumas palavras, escuta este ritmo, esta vacilação das águas, move-se a noite e eu deixo-me arrastar por aquilo que quero dizer: aquilo que ignoro, e é aqui que a frase pensa no seu próprio silêncio.

Uma noite de palavras, onde a frase regressa ao seu silêncio e o silêncio retoma a primeira frase, na linguagem reaparecem as primeiras estrelas do mar, e os animais da neblina passam o seu dorso nos novos espelhos.

Nota XIV

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Lembro-me de noites manchadas a vinho, desfocadas, de dançar apertado, de olhos fechados, numa pista lotada, dançar, deixar o corpo ir, trocar olhares perto da hora de fechar, a suar sob luzes vermelhas e azuis.

Vamos fazer uma pausa e lembrar.

sobre nós

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diz ela:
sobre o vivermos finalmente juntos, plenos
sobre o acordarmos a rir, a miar, o fazermos amor aqui e ali
sobre o esquecermos de lavar os dentes porque estamos colados um ao outro entre fazer amor ali e o voltar a fazer amor acolá
sobre as poucas horas de sono, o quanto somos "ambos os dois" afinados a ressonar, o quanto amamos espreitar e ser espreitados um pelo o outro
sobre os teus pés no chão de madeira, sobre o chegares e ficares
sim, essencialmente é tudo sobre isto: chegares e ficares.

diz ele:
sobre o encontro de dois corpos, que tudo encontram entre si.
és tu. sou eu.