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O amante ido

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Quando estavas aqui, enchia a casa de flores. Agora foste – apenas um sofá vazio ficou. O sofa onde não consigo adormecer. Passaram três anos desde que foste. O teu perfume ainda continua por aqui. Onde estás tu?

As folhas amarelecidas desprendem-se do ramo, a lágrima, o orvalho cintila branco sobre o verde musgo.

O quarto vermelho

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O pequeno quarto forrado de vermelho, a luz ténue de vela e ela ao meu lado na cama que vibra, estremece, metade da noite. Eu dormito e ouço, dormito novamente e ainda, apesar de não o ouvir, o seu sussurrar como a chuva, cai, cai sobre o meu ouvido. E ainda ao meu lado, com o calor de uma noite de Setembro, eu sinto o seu corpo sob os lençóis a queimar-me os membros da nuca ao calcanhar.

Vejo o seu perfil erguer a sua linha acima do cabelo, afastando a almofada que partilhamos.

Da leveza

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Fernand Fonssagrives

Os teus beijos, e o modo como te enrolas nos meus braços e em meu redor, deliciosamente dentro e fora, indissociavelmente, como fio emaranhado; forte abraço e beijo longo, a felicidade nítida. Insaciavelmente apaixonado. Amar assim sendo assim amado, ávido pelos nossos dias.

Aninhas-te perto, e manténs os meus dedos no teu peito; deito-me e sonho acordado, sinto o compasso e o calor do bater do coração, a sintonia com o meu sangue.

A carta III

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"Estamos agora separados – sento-me aqui nu, anseio o beijo. O meu corpo a pedir o teu toque. Entrego-me livremente, teu uma vez mais e apenas para sempre." Não havia nenhuma assinatura, apenas as palavras, "Por um toque selado," e a impressão de um dedo do escritor.

Redobrei cuidadosamente o papel em volta da mecha de cabelo, deslizou de volta para o envelope e regressou ao seu lugar empoeirado sob as tábuas do soalho. Por vezes pergunto-me se nunca se terão encontrado novamente. Só espero que tenham.

A carta II

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Henri Cartier-Bresson

Senti que tinha invadido a privacidade do casal, um voyeur de um evento ocorrido há quarenta anos atrás. Despertou-me a curiousidade, continuei a ler.

"Senti tanto a tua falta depois do nosso ultimo encontro – é sempre tudo breve demais quando estou contigo. Ensinaste-me o meu corpo, permitiste desencadear a paixão, acendes-me para lá da fértil imaginaçâo."

A carta I

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O envelope amarelado encontrado debaixo de tábuas soltas, chamou-me. Apanhei-o, soprei o pó, li o nome.

As minhas mãos tremiam enquanto tirava a carta dobrada, abri-a lentamente, uma mecha de cabelo caiu no chão. Um pedaço da história de alguém prestes a ser revelado, escrito numa única folha datada Junho 20, 1971. "Querida Maria," começava. "Sento-me nu perante a minha máquina de escrever, à procura de palavras e de chaves para colocar no papel."

O beijo VIII

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Richard Avedon

E podem culpar-me por eu o ter feito? Eu não sinto o mais pequeno arrependimento por este beijo roubado. Os olhos brilhantes que me digam isso: não rouba quem leva um beijo. Deixa a natureza em ti sussurrar o consentimento. Não somos todos feitos de pó? E tu, tu és onde me moldo.

Cai agora o olhar revelador, até eu me curvo para não o perder; nem aos lábios que antecipam o início do desejo.