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Carta ao meu avô

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Escrevo para ti desta vez para dizer-te as coisas que a boca de uma criança não consegue dizer. Escrevo-te para libertar o que sinto, escrevo-te enquanto a dor te invade e uma outra faz tremer o chão que piso ameaçando engolir-me. Escrevo-te para que possas imaginar este neto perante ti, pensar como cresceu mais rápido que o tempo e nas vezes que estiveste presente a vê-lo crescer. Escrevo-te em esperança de outros tantos abraços, de voltar a sentir os teus braços dobrar-se perfeitamente sobre mim, de estarmos juntos noutro local (onde devíamos estar e não aqui).

Escrevo-te na possibilidade de me escreveres também e iniciar assim uma correspondência de duração indeterminada. Escrevo-te desta minha parte que te adora, deste meu todo.

Uma floresta

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Extende-se a floresta, curvam-se com elegância ramos carregados de folhas; as velhas árvores, como grandes tendas, espalham copas verdejantes sobre as nossa cabeças, entrelaçam-se e projectam sombras impermeáveis.

Vulcão

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Que discussão pode ele ter que escureça todo o céu? Que deixe o seu corpo quente tremer e surpreender o mundo? Ela é violenta, sim, compreendo. Um embate, uma luta entre forças criadoras que nos moldam e que dão o inestimável contributo da própria vida. Deixa-a encher o céu oceano com giz em tons de cinza, tudo isso para mim é arte exposta em dias escurecidos.

Compassos

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A tua corrida tumultuosa em direcção ao mar agora suspensa, as tuas águas profundas ganharam esta tranquilidade. Descansa em mim e aquece o teu corpo. A tua plácida superfície brilha onde cai a última gota de chuva – e sorris para mim.

Desdém

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Desdenhando as formas decentes, cresce, ergue-se fortalecido, apressa-se. A vertigem de cada ravina acelera-lhe o passo, inegável, inflexível, acomodando em si a viagem. Nem a imobilidade da rocha impede a sua passage ordeira, aqui rapidamente, ali lentamente; liberta em cada gota de suor as toxinas da angústia. Dirigido única e exclusivamente pela sua vontade, mergulha de cabeça numa demanda para satisfazer o insaciável desejo de um oceano.

O gato de Bangkok

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Um gato de corpo elástico, de olhos cor de mel e pêlo sujo. Levanta a cabeça para se orientar, e logo o avanço sonolento. Pára silencioso ao pé da caixa pendurada, vagueia, estende-se, enlaça-se em si mesmo, e encerra-se os olhos de um dia moribundo. Começa agora o desfile nocturno de desafio à melancolia.

Rio oculto

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O rio onde segues oculto, imperceptível na quietude, e ondula perseguido pelo mais leve sopro da brisa que revela as suas intenções. Apenas abaixo, sob a tua calma superfície, é o teu verdadeiro caminho revelado. Longe dali, numa montanha ou numa planície coberta de salva, o local de nascimento onde uma única gota de chuva encontra o seu destino, gota a gota, uma poça, um fio, um fluxo que explora cada fenda, à procura de um descanso inatingível.