Mensagens

Identidade

Imagem
Algo te identifica com o que se aloja em ti, a faculdade de voltar: e aí, o teu mais grande pesar. Algo te separa do que fica contigo, a escravidão de não partir. Dirijo-me às individualidades colectivas, tanto como às colectividades individuais e aos que, entre umas e outras, marcam o passo imóvel no rebordo do mundo. Algo tipicamente neutro, inexoravelmente neutro, interpõem-se entre o ladrão e a sua vítima, entre cirurgião e paciente. O objecto furtado tem um peso indiferente, e o órgão operado a sua gordura triste. Haverá algo de mais desesperante na terra, do que a impossibilidade do homem?

Amador

Imagem
“I'm not afraid of dying; I'm afraid of pain.” (Amateur, Hal Hartley)

Resumo

Imagem
Subo as escadas e dou-me conta das paredes untadas, carne dos muros, como se estes fossem elas mesmas e eu não pudesse transpô-las e, dessa forma, atravessar todos os edifícios, observando as suas vergonhas e orgulhos, os seus amores e melancolias, os seus crimes e nascimentos. Uma necessidade imperiosa de ser explicada, dita, contada cada história, resumir este silêncio.

Ao próximo

Imagem
O sol toca-te o corpo, a jaula de metal retorcido reflecte a luz dourada. Sem água para amaciar lábios quebrados, sem sombra, em breve um último respirar. Sem palavras, sem poesia, sem família a lamentar a tua breve passagem, as últimas palavras são engolidas sem que o som chegue ao seu destino. És a próxima vítima da natureza, mas segues de bom grado.

Eternidade

Imagem
Na escuridão, sem esperança. Tacteia para encontrar a saída, cai-lhe cada passo, traído pelo pensamento, conduzido pelo medo. De repente, perde o chão. Cai na água. Entrega-se ao destino.

direcção ausente

Imagem
Ela segue as direcções por debaixo dos quadrados com fotografias de uma mulher. Ela deita-se, aquece os dedos. Não consegue deixar de pensar no que a sua mãe disse acerca do toque. Não farias isso. O que farias num apartamento vazio? Trepavas as paredes? Roçavas-te na mobília? Nada aqui parece ter mudado, e contudo nada mudou. Nada foi movido, mas há mais espaço. E à noite a luz não está ligada. Ouves passos nas escadas, mas não são os mesmos. Nem a mão que coloca um peixe no prato. Algo aqui não está a começar à hora do costume. Algo aqui não está a acontecer como devia. Alguém esteve a aqui, desapareceu subitamente e agora está teimosamente ausente.

Tempo III

Imagem
Encostado, vejo as sombras subir, fora do tempo, desfocadas. Um mundo, e eu era parte; eu, aparte, imutável e feito livre. "Como pude deixar o mundo?" Morre o corpo, passa o tempo como cem navios rio acima.