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A mostrar mensagens de Abril, 2012

Os lugares abandonados

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Uma hora e meia. Uma hora. Já descia a obscuridade. Vimos ao longe as luzes da nossa cidade, reverberantes, um halo amarelo, voltou a dar-nos um pouco de coragem. Por pouco tempo. Ainda que o comboio se movesse, a estação estava deserta. Por mais que procurasse não consegui encontrar uma figura humana. Por fim, o comboio parou. Que teria passado? Encontraríamos alguém na cidade? De repente, a voz de uma mulher, violenta como um disparo. “Socorro!”, um grito com a sonoridade oca dos lugares abandonados para sempre.

Acordar

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Se nada do que fazes tem significado, se as palavras que dizes não têm um objectivo a atingir, di-lo agora e acorda de um mau sonho. Alivia-te do arrependimento que se alojou profundo. Não saias e deixa as lágrimas voltar a cair. Porque sabes que esta vez é mesmo a sério. Acreditas que desta vez é para ficar.
Acordo e sinto. Acordo e acredito, tenho o teu nome em mim, fresco, doce. Tenho-te ao meu lado, uma beleza sentida. Durmo e acordo neste tempo que nos pertence.

Fronteira

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Lágrimas e sorrisos, ambos de natureza erótica, aprovados por ambos os mestres, céu e inferno. Componentes diferentes exilados de um mesmo lugar, uma fronteira de coisas semelhantes. Uma palavra honesta, um olhar profundo, tudo consumido por uma crença. Uma promessa cumprida, um toque irreal, uma veia azul.

As mãos

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As esguias mãos tão suaves, as mãos que tocam aqueles que nascem em determinada noite de vinho brindado e flores evanescentes; as mãos que eu beijo, até ao extremo de cada dedo e delicadamente em redor de cada pulso coloco uma pulseira com os meu lábios; as suaves mãos, minhas por todas as noites que restam, com aquele prazer da descoberta de outras terras, as tuas mãos, minhas pelos dias que restam.

O Tempo e a Pressa

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Vive-se depressa demais, pensando-se de menos. O tempo corre e nós com ele, quando o essencial não são os segundo que passam mas o que neles está contido. Vemos tudo de passagem sem que se pare e se contemple, sem questionar, sem ideias que levem a outras.

Vive-se depressa demais quando, por vezes, o essencial era ficar quieto.

Chamada

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Os meus olhos abriram-se perante um telefone azul na casa de banho do hotel de 4 estrelas. A quem vou telefonar? A um canalizador, proctologista, urologista, a um padre? Quem entre todos merece o primeiro telefonema? Escolhi o meu pai porque os telefones de casa de banho sempre o fascinaram. Liguei para lá. Atende a minha mãe. “Mãe, posso falar com o pai?” Ela engasga-se, e então eu lembro-me que o meu pai está morto há quase um ano. “Merda. Esqueci-me que ele está morto. Desculpa, como me pude esquecer?” “Tudo bem”, disse ela. “Fiz-lhe uma chávena de café instantâneo esta manhã, e deixei-a na mesa. Como o faço há, sei lá, vinte e sete anos. E não me dei conta, até esta tarde.” Riu-se para os anjos que aguardam as nossas pausas no mais comum dos dias.