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A mostrar mensagens de Novembro, 2009

Marca de água

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Masao Yamamoto

Tenho um outono, um pássaro e uma voz. Tu esperas-me: um lago, uma paixão e um fruto. E tem o nosso reencontro o voo, a corrente. Chego a ti de braços estendidos e sou agora a margem onde se escrevem mensagens de água. Amo como apenas alguns afortunados homens amam.

Água

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Apenas o teu sentir e a água... Outubro, a lua ia subindo. Eu seguia perdido em mares de desejo. O rio calava-se ao passar por nós, e o ar apenas se atrevia a mover-se por entre folhas de plátanos. Apenas se ouvia o fugaz encontro que quer fazer-se eterno dos meus lábios a beber vida nos teus. A noite enchia-se de aromas nossos e, enquanto um bater de coração repousava entre mãos, como o aproximar de um beijo murmurava o rio: apenas o teu sentir e a água.

Uma praia

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Uma praia de toalhas secas, o curso de água em que a realidade se comprime e dá a ilusão de existir em dois instantes: na vida metafórica e na morte literal. O real apoia a cabeça na de um fósforo que se incendia com a fricção do olhar, preso também ele num fogo.

A coisa grave

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A realidade inteira está em chamas, e não podes melhorá-la com uma frase. A tua e a do outro consumem-se contra a retina. Ninguém mergulha duas vezes no mesmo rio, e também não o podes melhorar com uma frase. O mundo não tem sombra própria, a realidade é o azeite em que flutuas. Apenas o amor é coisa grave, a gravidade, a gravitação universal.

De onde vens

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Alimentar-se na montanha e renascer. Não gritar, cantar por um momento antes de entrar na imensidão, no ritmo compassado. Acalmar-se junto a árvores mudas, baixar-se sobre a terra firme, e deixá-la, tendo-a apenas tocado, o sussurro do último momento, quando o sol seja um igual. Entrega-se a um novo início, aumentando a sua própria dimensão. Apenas aprendeu a viver vivendo, para alcançar consciência de si mesmo, em instantes anteriores ao desprender-se da sua origem, da história que recorda, tranquilo, perante o mar que não o espera, que murmura e o envolve. Águas, simples águas, turvas e limpas, traslúcidas, sol e vento, pedras mansas no fundo como rebanhos, criação, rios férteis, árvores, pássaros e tempestades, força, fúria e contemplação. Sai da tua cidade. Vem ao país do mar. E dirige-nos todo um sentir.

Posição

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Todo este planeta e esta estrela, não estando sujeitos à morte, e sendo impossível a aniquilação na Natureza, de tempos a tempos renova-se a si mesmo alterando todas as suas partes. Não há um acima ou abaixo absolutos; nenhuma posição absoluta no espaço pois a posição de um corpo é sempre relativa às dos outros corpos. Em todos os lados há uma troca constante de posições, mas nós (sim, eu e tu) estamos sempre no centro.

Big Bang

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Se te perdesses entre Júpiter e Urano, fecharias com força os olhos para não ver o medo do universo inteiro porque, se te vissem, as estrelas ganhariam consciência, compreenderiam a lógica cega, inventariam a óptica, o jogo, a ética, a estética, e o universo intero iria fazer sexo. Um novo big bang.

As últimas sombras

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Eu também me faço um pouco livro, adormeço em mim...

Luz difusa. Abre-se a madrugada como uma fruta. Mulheres despidas e homens silenciosos saem das últimas sombras. Esperam-me as árvores. Porquê? Estremecem as folhas. Vou inundando-me de música.

Serena

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Serenidade. Desejo-te: eu que sei o que procuro. Olhamos a vida em torno, apaixonadamente -sempre- em nós o calor de uma chama dupla. Olhos despertos. De música nos ouvidos. Os dedos felizes. Todo o sabor agridoce da vida, na língua.

Diz-me

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Quero ouvir a sua voz dizer-me que me quer. Quero os seus braços e a sua cintura. Quero sentir no meu colo o seu desejo.

- Então... diz-me o que queres.
- Quero ver-me nos teus olhos...

Encontro

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De onde vens? O sonho esconde-se na praça em frente. O quarto vai-se inundando de mar, de barcos e peixes, aquário improvisado sobre o verniz do soalho. Na cama flutuante dois corpos nus; músculos nos meus músculos, braços delgados e ardentes, iluminados de febre, precipitam-se sem pulso.

O silêncio apunhalado volta a sombrear as paredes; um sonho de relógios ausentes sobre a cama cansada. De onde vens? São as coisas da sorte, uns encontram-na de costas, outros de frente, e eu encontrei-me nos teus olhos.

Silêncio #2

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A noite azul fala comigo, serena-me. Na varanda aberta ronda o ar, desliza pela escuridão. É um prodígio de constelações este céu. A brisa chega fresca e perfumada, não sei o que se passa, a noite contém todas as lágrimas e todos os sorrisos, sinto o peito inchado e uma enorme tranquilidade sobre mim. Abrem-se todas as minhas esperanças.

Nesta noite #2

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Nesta noite sedenta perguntei-me quem era. Esta noite encontrei-te, e fazendo do teu sangue água baptizei o meu prazer. E disse à morte que não pode matar-me! E disse ao nada que se procura apagar-me, tu, com os teus beijos, voltarás a incendiar-me!

Tu és

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Renasci ao sentir-te. Tomei-te como língua de fogo. Quero saber se o teu pulso de febre imaginou a cadência do meu sangue. Quebráste a redoma da minha essência. Rompeste os meus muros com os teu delicioso murmurar.

Cruzas os meus abismos, derramando-te nas minhas raízes.

Rio

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Falo-te com a serenidade de um rio profundo ou de um lago sem palmeiras artificiais. Sentiste-me ali, na tua espessura, como raiz, como vento curioso. Inspiraste-me no primeiro nevoeiro da manhã, despertámos num raro amanhecer.

Regresso #2

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Tens-me em ti de novo. Aqui vejo vida, faço-me chama nesta fogueira entre mãos, sinto que sou um homem mais entre os homens. O amanhecer deixa a noite despida e livre, vai-se o frio, presentem-se sons ao longe, aquecemos, murmuramos calor, aqui estou aqui de novo e é imenso o desejo que sinto, quanta fortuna e esperança partilhada.

Regresso

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Regressa muitas vezes e toma-me, um sentir imenso. Regressa e toma-me quando a memória se desperte, quando o desejo passe pelo sangue, quando os lábios e a pele despertem e as mãos toquem de novo...

Regressa muitas vezes e toma-me de noite, à hora em que os lábios e a pele despertam.

Respostas

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Diga o que se diga, os livros dão respostas. Ainda que não sejam soluções, ainda que não sejam definitivas. Respostas instantâneas, luzes como relâmpagos no obscuro. Uma frase bonita, uma pasagem de um romance, um verso: eis, de imediato, a verdade. E tudo sem sentido, e toda a desordem, convertem-se, repentinamente, em beleza.

Acordar

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Toco a tua boca, com um dedo toco o rebordo da tua boca, vou desenhando-a como se saisse da minha mão, como se pela primera vez se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar, faço nascer de cada vez a boca que desejo, a boca que a minha mão escolhe e te desenha na cara, uma boca escolhida entre todas, com absoluta liberdade para a desenhar com a minha mão na tua cara, e que coincide exactamente com a tua boca que sorri por debaixo da que a minha mão te desenha. Olhas-me, olhas-me de perto, cada vez mais perto, olhamo-nos cada vez mais perto e atraem-se os olhos, aproximam-se entre si, sobrepõem-se a quem se olha; respirando confundidas, encontram-se as bocas e lutam, mordendo-se com os lábios, apoiando apenas a língua nos dentes. Fundem-se as minhas mãos em ti, a acariciar lentamente a profundidade enquanto nos beijamos como se tivessemos a boca cheiade flores ou de peixes, de movimentos vivos, de aroma. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos es…

Quero

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Quero ser tudo no sentir, o amante, o amado, a vertigem, o vento, o reflexo da água e essa núvem vaporosa que nos cobre um instante.