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A mostrar mensagens de Janeiro, 2009

Impacto

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O melhor esconderijo das profundezas é a superfície. Peço cento e dez anos de vida para compreender o mar, sabendo que a vida tem a duração de uma bala. Um disparo, acabo de nascer, espera-me uma trajectória e um fim (com ou sem destruição). A angústia de escolher um alvo quando o tempo escasseia. Até aqui tudo bem, o pior é o impacto.

O que se vê

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Os horrores que vimos, e os ainda maiores que vemos, não são sinais de que os rebeldes, insubordinados, gente indomada, estão a crescer por todo o mundo, mas (antes pelo contrário) que há um aumento constante de gente obediente.

Em diferença III

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O contrário de amor não é ódio, é indiferença.
O contrário de arte não é fealdade, é indiferença.
O contrário de fé não é heresia, é indiferença.
E o contrário de vida não é morte, é indiferença.

Em diferença II

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Para aquele que é indiferente, a própria vida é uma prisão. Qualquer sentido de comunidade é externo ou, ainda pior, inexistente. Logo, indiferença significa solidão. Os que são indiferentes não vêem os outros. Nada sentem pelos outros, nem se preocupam com o que lhes possa acontecer. Estão rodeados por um enorme vazio. Cheios dele, de facto. São desprovidos de qualquer esperança ou imaginação. Vazios de qualquer futuro.

Em diferença I

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Pode bem ser que todos os nossos meios sejam bem limitados e as nossas possibilidades restringidas quando se trata de pressionar o governo. Mas é isto razão para fazer nada? O desespero não é a resposta. Nem a resignação. A resignação apenas leva à indiferença, que não é pecado mas sim um castigo.

Emergência

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Chega um momento em que tens que te levantar e gritar:

“Isto sou eu, porra! Pareço aquilo que sou, penso o que me passa na cabeça, sinto assim e amo desta maneira! Sou todo um complexo pacote. Levem-me ou deixem-me em paz. Aceitem-me ou sigam para outro! Não tentem fazer-me sentir menos pessoa, apenas porque não encaixo na vossa ideia de como devo ser e não me tentem mudar para encaixar no vosso tupperware. Se eu precisar de mudar, eu mesmo tomarei essa decisão.”

Quando fores suficientemente forte para tu mesmo alimentar o teu amor-próprio, ficarás espantado com as possibilidades que a vida te apresenta.

Lista de exigências

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Exijo um tipo de sociedade em que o recolhimento, o retiro, seja um direito natural. Acuso o mundo moderno de ter invadido a minha solidão, de ter introduzido nela a política e guerras totalitárias. Como tal, vejo-me obrigado a exigir que se transforme o mundo. E não me digam que tal exigência seja desmedida: ela constitui a condição básica da sua existência.

É muito difícil para mim aceitar esta tarefa, que não implica qualquer agradecimento: manter-me aparte e agir como intermediário; comunicar algo tão essencial como queijo e vinho. A sociedade nunca chegará a compreender estas exigências, continuará indiferente. No entanto, eu devo aprender e compreender a sociedade. Devo aceitá-la? Faço-me explodir.

Termo acumulador

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Não deixes acumular palavras que precisam de ser ditas. A dor que sentes não deve ser escondida. O arrependimento e a raiva deverão ser suprimidos. Tudo o que leva ao teu diminuir.

A raiva é uma toxina mortal que se liberta no corpo. Toma conta dele, membro a membro, entra nas veias e circula. A vingança e o ódio tomam conta de ti. Agora, é tarde demais.

Loucura é não amar

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Aos vinte, ficou louco de amor, e aos trinta, um homem de idade madura, continuava apaixonado e capaz de sublimes loucuras. Um homem que ama pela primeira vez deveria ser cauteloso (deveria?). Apaixonou-se de forma violenta. Até à data, tinha perdido muitas ilusões sobre mulheres; tinha visto um amigo arruinar-se num matrimónio absurdo; conhecia o prazer da liberdade, sem se cansar dela; intuía riscos onde a juventude apenas percebe o êxtase, o homem maduro era apenas uma feliz libertação da solidão. Em vez de procurar, ele era procurado; era egoísta e restrito. Todas estas coisas combinadas acalmavam-lhe a paixão. O seu amor era um afecto adormecido, uma carícia sóbria, de olhos abertos, cuidadoso, demasiado orgulhoso para parecer angustiado.

Talvez

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Talvez tenha sido loucura o que me impulsionou a viajar. Eu dizia que tinha sido cultura. Claro que a cultura é por vezes loucura, ou inclui-a no seu curriculum. Talvez tenha sido o desamor que me impulsionou a viajar. Talvez um amor excessivo e transbordante. Talvez tenha sido loucura.

inútil fuga

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Durante os últimos cinco anos a minha vida não tem seguido um rumo fixo. Indo de nada a nada, sem dono nem destino, sem refugio nem bússola. À deriva. Empenhado na inútil fuga de mim mesmo, em busca de um lugar onde cair vivo. Bebendo cubalibres e fumando charros e enchendo copos e beijando lábios e lendo livros e escrevendo textos, em geral bastante maus, há que reconhecê-lo. Digamos que queria ser Burroughs. Experimentei quase todas as drogas disponíveis.

Uma vida em perpetuo movimento, a travessia contínua da cidade, saídas a horas intempestivas, encontros em lugares inesperados, perseguições, enganos, traições, vinganças, caras novas, gente nova, camelos, caramelos, charros, idas e voltas, nenhum lugar seguro, nenhum dia igual ao outro.

Tempo IV

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Os dias passam lentos. Um destino conduzido pelas horas. Chegaram as noites. Nelas, acendíamos palavras, as palavras que logo abandonamos às que se seguem. Agora sim. Podem descolar palavras que flutuam ligeiramente sobre o corpo.

Agora em silêncio. Quero dizer-te algo. Apenas quero dizer-te que estou contigo. E digo-te, de mão sobre o teu braço, entre corpos. Quero dizer-te que todos nós trazemos as vidas connosco, aqui, para contá-las. Um ao outro, falamos, sabemo-nos bem e, na recordação, a alegria iguala a tristeza. Para nós, é terna a dor.

O tempo. Tudo nele se compreende.

Ele

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Ele que ama com as mãos, sente o silêncio e a sua carne pesada por entre os dedos. Ele que apenas ama, ele que te sonha, ele que se perde em espelhos de chuva e ele que procura a tua boca num copo de vinho, ele que caminha sobre sombras, o solo das madrugadas. Ele que ama um instante sob a lua.

E ele que te beija. Nossa, a noite dá-nos de beber, furta-nos e devolve-nos, agridoces, possuídos, numa praia solitária.

Nunca regressar

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Com as costas encostadas às rochas, sonhei um amor com força de tempestade, alucinante, com aroma de algas iodadas e sabor acre de sal. Um amor de horizontes infinitos sobre o mar e debaixo do sol. Com as costas encostadas às rochas, sonhei ser também mar; pernoitar nas entranhas dos arquipélagos e nunca regressar.

Escolher a morte II

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Estou prestes a desertar do meu corpo neste momento. Vou largar o volante à chegada da curva, todas as culpas e uma caneta envenenada. Vou esquecer o salmão para o jantar e a salada. Os meus planos serão redistribuídos.
Alguém que tire uma foto dos destroços, dos salpicos vermelhos, a mim, o mesmo de sempre, apenas sozinho de vez.

Um dia na vida da Capuchinho Vermelho

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Menina de capuz vermelho, sente-se bem, toma banho nua, apanha lenha, aproveita a infância, come, rouba maçãs verdes, cogumelos, alucina, corre nua, deita-se, alimenta o bosque, bebe, diz asneiras, bate numa árvore, pragueja, bate mais, menina morta de capuz vermelho.

Escolher a morte I

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Nuvens negras avermelham-se. Enquanto, em baixo, a manhã arde. O homem que morre vira o olhar à procura de um regresso; aponta para o céu que a claridade incendeia; a luz reflecte-se nos seus olhos, e nos seus lábios um nome sussurrado. Tu pensas, ao ouvir falar algumas pessoas, que este homem incolor irá para Oeste.

Identidade II

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Algo jaz no campo, em algum sítio, numa terra esquecida; um pouco de pó abandonado.