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A mostrar mensagens de Outubro, 2011

Desdém

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Desdenhando as formas decentes, cresce, ergue-se fortalecido, apressa-se. A vertigem de cada ravina acelera-lhe o passo, inegável, inflexível, acomodando em si a viagem. Nem a imobilidade da rocha impede a sua passage ordeira, aqui rapidamente, ali lentamente; liberta em cada gota de suor as toxinas da angústia. Dirigido única e exclusivamente pela sua vontade, mergulha de cabeça numa demanda para satisfazer o insaciável desejo de um oceano.

O gato de Bangkok

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Um gato de corpo elástico, de olhos cor de mel e pêlo sujo. Levanta a cabeça para se orientar, e logo o avanço sonolento. Pára silencioso ao pé da caixa pendurada, vagueia, estende-se, enlaça-se em si mesmo, e encerra-se os olhos de um dia moribundo. Começa agora o desfile nocturno de desafio à melancolia.

Rio oculto

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O rio onde segues oculto, imperceptível na quietude, e ondula perseguido pelo mais leve sopro da brisa que revela as suas intenções. Apenas abaixo, sob a tua calma superfície, é o teu verdadeiro caminho revelado. Longe dali, numa montanha ou numa planície coberta de salva, o local de nascimento onde uma única gota de chuva encontra o seu destino, gota a gota, uma poça, um fio, um fluxo que explora cada fenda, à procura de um descanso inatingível.

Para efeitos de registo

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Ao contrário de muita gente que anda para aí, zangada com a vida, acomodada ao cepticismo e à expressão cáustica do seu desencanto, eu acredito nas formas do sentir profundo. Claro que dá trabalho, mas a alternativa é uma espécie de renuncia ao acto pleno de viver. Sim, acredito em amor e paixão. Sim, reconheço-o: sou apaixonado.

A Floresta

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Bem dentro da floresta te podes desviar, escutar a linguagem da madeira e ,meio esquecido num dia abafado, com as lâminas dos campos de milho a brilhar em alinhamento, a estrada onde se arrastam os veículos. Os teus passos seguem as sombras para dentro da floresta e ainda mais fundo te podes desviar e escutar o som grave da madeira, ou ver o balouçar das videiras enquanto falecem brisas intermitentes.

Assopra onde o velho tronco assenta, caído, vazio, cinza, por onde o musgo rasteja e fungos crescem como esculturas, bem dentro da floresta e ainda mais profundo te podes desviar e escutar o crepitar da madeira.

Respiro

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A noite cai e desaparece com a brisa, perde-se no virar da maré. A manhã desliza entre árvores espactrais; e eu, que acordei antes das abelhas, sou arrebatado pelo som do colapso das folhas. Levanto os lábios, que se descolam lentamente, e fico de boca entreaberta como um gato curioso. Respirando o respirar do dia e sentir em mim o profundo, o divino na luz de um olhar.

Viagens de si

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Para onde corre a água? Pela areia chega ao mar, desejosa de entrelaçar as ondas que se quebram sobre praias selvagens e livres de quaisquer vestígios de passagem humana. Como corre a água ao afastar-se? Como música através de portas meio fechadas, como um sorriso nas escadas.

É uma viagem pura, plena, livre; como a própria vida humana que se escreve daqui à eternidade.

Uma viagem

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Corre para longe a água, para onde os campos se estendem e se alimentam os animais; através de passagens na montanha e entre enormes rochas cobertas de líquenes cinza. Passadas as portas das casas, passados os adros das igrejas onde dormem os esquecidos; passadas as áreas comerciais onde se pisam os vivos, sem que importe a postura.

O mais profundo sentir

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Trevos, pinhões em extâse, levitando e deslizando, encaixando-se no relvado. Sol e sorrisos solares, desejos selvagens, dias solares, céus lúcidos, todos os humores imprudentes que o amor inspira. Pomares, juncos, lírios, trigo, a música que preenche os seus dias.

Talha dourada, orvalho, gotas de chuva, sombras e o mais profundo sentir.