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A mostrar mensagens de Maio, 2009

Tempo V

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Sim; o homem é o animal que usa relógios. Ele parou o seu - um prateado que levava sempre consigo -, pouco antes de morrer, convencido de que na vida eterna a que aspirava não iria servir-lhe de muito, e no Vazio, onde poderia submergir, muito menos ainda. Convencido também - e isto era o que mais o entristecia - de que o homem não teria inventado o relógio se não acreditasse na morte.

Avenida de Madrid

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Sol; o céu de primavera é de luz e pequenas nuvens brancas. A avenida curva-se sobre uma mulher de pele dourada... o vento brinca com o seu casaco verde lima. Há carícias nesta manhã luminosa; na carne perfumada.

Um cenário com árvores, com aromas perfeitos, com a doçura das línguas!

Amanhecer #2

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Riqueza inesgotável do minuto, dá-me uma gota que me inflame os sentidos; dilata os confins do humano, as infinitas possibilidades do homem, o jogo de sorte universal.

Lenta velocidade

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Já me conheces tão bem, conheces a solvência de minha tristeza. Sabes da semente que habita a minha cabeça. Já bebeste a minha embriaguez, levaste para tua casa a minha vida encontrada, onde terminou o abismo nocturno de passos e de vozes.

Esta forma lenta de amar, mais que esperada, recebo-a como um amanhecer. Caí, beijando-te, contagiado bani o meu naufrágio e deixei-me arrastar pela velocidade do mundo.

Manual de instruções

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Começa por partir os espelhos da tua casa, deixa cair os braços, olha vagamente a parede, esquece-te. Canta, escuta por dentro. Ouves (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem, com silhuetas seminuas, penso que estarás bem encaminhada, ouves um rio por onde passam pequenos barcos pintados de verde e negro, ouves um sabor de pão, um toque de mãos, uma sombra de um felino.

Amanhecer

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Como uma névoa, como uma chama branca, dona de si mesma, do seu nascimento, do seu pulso. Um pouco mais além e mais além até tocar as rochas. Lenços de sol sobre a cauda; chuva de quartzo; silenciosa.

Um movimento denso; mergulha-o no seu corpo. Profundo. Renasce. Lento e luminoso. Um pouco mais além, mais além, estremece o toque. Suavemente, os troncos cedem e vão-se estendendo sobre a erva; inunda-se o amanhecer. Pesam menos as sombras, erguem-se os corpos. Uma chama dupla, um odor de rochas húmidas.

Regressa

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Escrever é procurar a calma e, às vezes, encontrá-la. É o regresso ao lugar. Acontece o mesmo com a leitura. Quem escreve ou lê de verdade, isto é, para si mesmo, regressa à casa onde se sente. As pessoas que nunca escrevem nem lêem, ou o fazem por obrigação, estão sempre fora do seu lugar, ainda que tenham muitos. São pobres, e empobrecem a vida.

Percepção

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Se ver ou ouvir é deixar de ser para conhecer, seria absurdo dizer que vejo com os meus olhos ou que ouço com os meus ouvidos, já que os meus olhos, os meus ouvidos, são também seres do mundo; são instrumentos de excitação corpórea, não da percepção em si. Os meus olhos vêem, a minha mão toca; mas estas expressões ingénuas não traduzem a verdadeira experiência.

A sensibilidade devolve-me aquilo de que a alimento. Ao olhar o azul do céu, não sou um ser cósmico, não o possuo em pensamento, nem elaboro uma ideia de azul que me revela o seu segredo; abandono-me a ele, entro no mistério, torno-me céu eu também nesse azul ilimitado.

Ânimo

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Hoje sinto-me apenas como um navegante sem embarcação, num lago, igual aos seus líquenes e aos seus peixes, sereno, ansioso pela tarde em que te aproximes e te olhes, te vejas ao olhar-me.

Silêncio

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Olhando a cidade, escuto o ruído com toda a atenção, cada lamento cada grito cada rumor, olho para além das luzes, paro onde tremem as sombras, desprende-se um hálito do céu, inclino-me sobre o abismo, procuro entre os arbustos com calma, olhos nos olhos com o crepúsculo, com o sopro do vento, música, o prazer o pensar o sentir, estás aqui, encontro-te em mim ao fechar os olhos, na quietude no rio no voo, escrevo-te para onde estás, onde me encontro eu mesmo.

Saboreei-te

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Desejei ser aquela peça de aço inoxidável quando levou a colher de sopa aos lábios. Teria trocado todo o sangue do meu corpo por meio litro de caldo vegetal. Tive inveja do pãozinho. Vi-a partir e untar cada pedaço com manteiga, e o prazer dos seus dentes.

As batatas, o aipo, tudo passou pelas suas mãos. Ao comer a sopa, filtrei-a para saborear a sua pele. Tinha estado ali, devia ter caído algo dela. Encontrava-a no azeite. Soube, quando lhe perguntei o que tinha a sopa, que havia suprimido o ingrediente fundamental.

Arquipélago

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Gosto deste tempo lento, disse-me ao amanhecer.
Mar de mulher, eu arquipélago.

Solar

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A minha pátria está nos teus olhos, o meu dever nos teus lábios. Pede-me o que quiseres menos que te abandone.
Naufraguei nas tuas praias, estendido na tua areia; sou feliz, teu. Sou deste sol que és, solar em ti.

Como um lago

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Embriagado de te amar e de te espreitar. Luz branca e negra e vermelha e viva, nas tuas mãos lentas, uma eternidade nos teus olhos, silêncio nos teus lábios. Amo-te, embriagado nos teus olhos, no silêncio, na noite viva sem lágrimas, noite viva como um lago sem medo.

Medo

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Medo de perder ambos, de viver um sem o outro: medo de ficar preso no vento, na neblina, nos passos do dia, na luz do relâmpago, em qualquer parte. Medo que os faz abraçar, unir-se neste ar que agora juntos respiram. E procuram-se, desfazem-se num sopro e encontram-se.

Medo; bendito medo que propicia o desejo e o rapto dos que morrem juntos e logo ressuscitam.

Ela mar

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Despimo-nos no carro. Ela estendeu-se de costas e eu permaneci sentado, contemplando o seu corpo moreno com os cabelos a brilhar sobre a areia, e desejando-a. É “ela”, de todas as formas e entre todas as coisas, o meu mar.

Como me tens

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Eu procurei-te e procurei-te por todos os lugares, por todos os caminhos em que andava e desandava, uma vez ouvi os teus passos no bosque, outra vez escutei o teu riso, mas nunca te tive entre os braços para te poder falar, para dizer-te que a minha vida ia caindo como uma gota de água, que fazia frio e que te havia esperado sempre, nu e amante como me vês, como me tens encostado ao teu peito.

Ali, ao ar

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O autocarro roda aturdido por uma estrada que é um sol, incessante, feroz. O céu nos seus rebordos é branco, vaporoso. Não sopra nada de ar. Desfalece. E então, sem que ela o tenha pedido, o condutor anuncia Prazeres. Maria endireita-se no banco. A névoa solar é densa. O suor empapa as costas e o peito. O autocarro começa a diminuir a velocidade. E ali, à direita, Maria vê surgir entre um gato com a língua ao ar. Não precisa de ver mais. Ali estava ele.

Somos a montanha

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Fazias parte da montanha, igual às suas plantas, árvores, rochas, pedras... Deixei-me ficar junto a ti, protegido por um poderoso silêncio. Senti que vibravas com a mesma pulsação da terra. Desejei ficar ali para sempre, naquele espaço, aparte do mundo dos homens, que sentíamos nosso, como se por fim tivéssemos encontrado a nossa morada primordial.

Os imbecis

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Eles não compreendem nada. Não é preciso ter lido muito para ser sensível, para saber de que se trata. É um dom, um talento. Tens ou não tens... Eles podem ler bibliotecas inteiras. Mas tu, desde sempre o notei, para ti as palavras... Tu nunca disseste o desnecessário, nunca nada vago, pretensioso. Claro que, de vez em quando, tens que usar palavras. Não há outro remédio. Aquela palavra, sabes tu melhor que eles, é essencial.