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A mostrar mensagens de fevereiro, 2009

Admirável novo mundo

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Ele, que não viveu aquele tempo, que tinha o direito de carecer de memória, que abriu os olhos quando já tudo estava terminado e todos nós condenados à vergonha e à morte, desterrados, enterrados, presos, acostumados ao medo. Mas foi na sua imaginação que voltámos a nascer, muito melhores do que fomos, limpos da cobardia e da verdade.

Exacto

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No mar, interpôs-se um caminho. Sobressai um rosto de mulher que não para um instante; sorri ou chora, leva um dedo aos lábios a pedir silêncio, fecha os olhos para deixar passar o sonho. Na outra extremidade da lua, um barco atravessa lentamente o horizonte, a uma velocidade de distancia. Quando se completa a noite, fica o barco apenas, iluminado pela luz rosa de um projector de teatro. Aparece a mulher, de corpo coberto de estrelas. Os olhos são o que mais chama atenção; pequenos espelhos amendoados. Sei que são espelhos, sem dúvida, vejo-me neles.

Ser sombra

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Detém-se o vento no caminho; a sombra é o silêncio da tarde. Senti-te chorar. Há um fumo distante, um comboio que regressa, enquanto digo: sei que sou a tua própria dor, mas quero amar-te.

Eutanásia

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Na inclinação morena dos teus olhos, o silêncio converte-se em aroma, voam palavras e lágrimas, a sombra clara converte-se em mistério. O último esquecimento morrerá com o homem, e as tuas mãos delgadas, a minha voz, e os meus olhos, tudo será divino ao perder a memória. A dor não termina e é lenta a passagem do sangre ao repouso, levas a alma derramada pelo caminho, a angústia que me queima os olhos, à procura da palavra certa, ofereço-te a sombra, a paciência do mundo onde esqueço a espera, onde esqueço esta angustia imóbil de ser árvore, onde posso acreditar, porque caminhamos juntos como dois irmãos perdidos na neve.

Língua viva

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Combate corpo a corpo entre vivos e mortos. Reanimação boca a boca. A tua boca, onde se escavam as palavras, as palavras cobertas de areia sob o tempo. Beija-me e receberei o dom das línguas.

Silêncio

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As minhas diversões eram sempre as mesmas. Acabava, pouco consciente, mas não menos abismado no crepúsculo que me envolvia, levantando a cabeça, sem sentir o menor incómodo pelos raios del sol que se quebravam nos meus olhos quase mortos.

Elemento

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Acende-se o dia entre duas noites: do relógio ao minuto, luz que se levanta. Nada persiste contra o andar do dia. Do seu nome surgem ilhas. Enquanto avança, devora-se. E quando toca a fronteira em chamas começa a calcinar-se. É meia-noite. A única luz é a do relâmpago. Ouço o vento em fuga. Tudo me interroga. Mas nada responde. Atrás o tempo luta com o céu. Tudo acaba e tudo começa.

Em monumento algum

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Passava a pé por estas ruas, sem peso. Nunca esteve no estrangeiro. Esteve preso. Escreveu na língua em que um dia irão ser escritos os tratados de comércio, a Constituição, as cartas de amor e os decretos. Agora está morto. Sem qualquer monumento...

Anoiteces

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Sempre estiveste ao meu lado, iluminando-me os piores momentos; desde pequeno que foste um mistério para mim, um consolo em noites desesperadas; no meio do bosque, nos lugares mais assustadores, no mar; ali estavas tu. Olhava-te, no teu rosto uma expressão de dor, de amargura. E agora, subitamente, lua, desfazes-te em pedaços. Fico, só. És de noite.

Perante si

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As trajectórias que se dispersam no céu, a sombra que se arrasta, mas não é de noite aqui. As árvores adormeceram, alguém passa e parece chamá-lo. Não se ouviria no ar em que os pássaros se escondem e os nomes se apagam no tempo. E ele, apenas ele, fica de braços levantados à espera de algo, não se sabe o quê.

Anoitecido

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“A forma deixa de ter importância quando já se sabe 'tudo' e já nada se espera.” MJ A noite vai-se encerrando. Num momento cruzam-se sons vagos, e algo sucede que a cidade cala, alarga-se então o medo como um rio, cada vez mais frio, menos sol, cada noite põe a vida um pouco mais deserta.

Da ordem do sentir

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Não posso escrever sobre ti uma verdade superior a ti mesma. Não poderei ir mais além. O que guardo de ti não é da ordem da física: os teus joelhos, sabor de vinho na língua, perfume nos braços, olhar e voz que me abrasam; não se apagarão. Isso é só meu. A noite leva-me a luz, objectos que não se vêem, intuem-se. E o silêncio é o que cai quando tudo se sabe e nada se espera.

He lost control

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Odeio isto, odeio mesmo. Dia a dia sou usado por mim e eu sem o ver. Estou a dar cabo de mim, pedaço a pedaço. Continuo a não me importar, não me poderia importar menos se apodreço dia a dia. Nunca liguei ao meu tempo gasto; sou apenas um escravo. Faço coisas que traem a minha mente. Magoo e sei que o faço, pudesse apenas eu ficar com a dor. De qualquer maneira eu continuarei a regressar. Tento atirar-me para longe, dia a dia. Mas amo-te, dia a dia. Amar sem razão, sem frases feitas, sem presentes, sem dinheiro, sem ódio, sem ciúme, sem tempo.

Apaixonadamente, a fúria

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Lá estão outra vez os meus desejos a gritar-me. Sem medo, transformam-se, reconstroem-me, atravessam-me a coluna em arrepio de febre. São os desejos, os que me levam na chuva que golpeia o telhado, apaixonadamente enfurecidos.

Rio

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O rio torna-se estreito e profundo como um segredo, com a intensidade de uma ideia. A água tem a profundidade de um conceito e aqui é o rio a sombra do corpo. Um instante na vida aquática, uma folha, uma nota, uma esperança, um homem apenas, um bater de asas, a primeira gota.

A grande ilusão

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Onde estão as bases de uma república genuína, com instituições livres? Temos apenas uma classe governante e uma governada. Onde estão os cidadãos, sem os quais a administração de uma cidade é uma impossibilidade? Temos apenas funcionários. Devido ao governo de tiranos, demasiado lento, existe demasiado desacordo, perde-se demasiado tempo com burlas, estes senhores escravizaram-se a si mesmos. Os cidadãos preferiram ver-se a si mesmos cair vítimas daqueles que elegeram, sem direitos legais, ilusoriamente iguais a todos.

Inundam-se

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Como um incêndio ateado ou um insecto suspenso sobre a água, os nossos corpos de silencioso aroma; acendem-se sob o toque suave, inundam-se, palpitando através da pele, em chamas sobre o silêncio da tua pele.