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A mostrar mensagens de Janeiro, 2010

De Tróia II

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O azul da tarde, flores húmidas que escurecem o ar, abrem-se e voltam a fechar-se atrás de nós como a porta de casa. E bastava-nos um toque ligeiro, um passar de mão pelos ombros e sentir a tua cabeça pender, enquanto surgem na penumbra as primeiras luzes.

De Tróia

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Agradeço os momentos em que o mar nos viu juntos. No tacto de carícias irrequietas entre os dois, no estremecer do teu peito, na camisa aberta ao vento. E os finais de tardes sossegadas, quando o crepúsculo nos devolvía a casa como hóspedes de liberdade.

Uma nuvem

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O homem agita-se em todas as direcções, sonha com liberdades, compete com o vento, até que um dia se apaga, voltando a ser pedra no caminho de ninguém.

Eu, que não sou pedra, apenas caminho, vivo de amor por ela; entrego-lhe o meu corpo, levo-lhe uma nuvem. Ela compreende, como eu, que nada entre todas as nuvens vale tanto quanto um amor que se entrega.

Toque de fogo

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Uns corpos são como flores, outros como punhais, outros como linhas de água; mas todos, mais cedo ou mais tarde, serão queimaduras que com outro corpo se expandem, convertendo pelo fogo uma pedra num homem.

Beijo luz

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Este beijo nos teus lábios como um mar feito espelho, as mãos que passam sobre a pele, um crepitar de luz, tu no meu colo: a unidade.

Deixa

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D.Birkin & E.Fornieles

Deixa, deixa que te espreite, ruborizado o rosto, deixa que espreite ao fundo do corpo onde moro e pretendo viver para sempre.
Quero amor ou a morte, quero viver tudo, quero ser tu, o teu sangue que irrigando os belos membros extremos sente assim os limites da vida.

Escalar

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«escalar-te lábio a lábio respiro rente à tua boca a luz arde entre os lábios

um corpo, certamente. mas que é um corpo? boca, seios, coxas, sexo, um sorriso, a mão que afaga, voz?

as tuas mãos imensas sobre mim e tu dentro de mim vais descobrindo que para além de tudo, sou também isto.»

[M.J.]*

Transbordo quando apareces, tremo vermelho-sangue, coração-sangue que pulsa; inunda-me o sabor agri-doce de um pleno viver.


* Escrito por quem amo.

Chama, a boca

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Fernand Fonssagrives
Corpo feliz que flui entre as minhas mãos, rosto onde contemplo o mundo, o planeta onde nada se esquece. Tu, brilho solar entre as minhas mãos, deslumbras com a chamada da tua boca.

Quero viver no fogo, porque este ar de fora não é meu, apenas o desejo que ao aproximar queima e escurece os lábios.

Não sabem

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Sandy Skoglund

Não sabem o profundo que é o imenso que é o imprevisível. Mais imprevisível que a dança de uma chama, de uma viagem. E tudo, absolutamente tudo, conta.
Os dois olhares que cruzam a metade do olho, um encontro, um estremecer de alguém atingido, sente-se o ar que nos envolve e emergimos perplexos e emergimos a falar em línguas nossas.

Assumindo o risco da presunção, digo-o: não sabem o profundo o imenso o belo que é.

E se?

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Alexander Rodchenko

E se uma dúvida te faz sinais a dez mil quilómetros, deixas tudo, lanças-te e estás já lá; com os beijos, com os dentes a arrancas: já não é dúvida. Tu nunca podes duvidar e nunca te enganáste mais que uma vez.

Apareceu uma sombra e quiseste-a abraçar. Era eu.

Assim somos

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Vives sempre nos teus actos. Tocas o mundo com a ponta dos teus dedos, arrancas-lhe o amanhecer, cores, a felicidade: é a tua música. A vida é o que tu tocas.
Dos teus olhos, apenas deles, sai a luz que te indica os passos. Andas pelo que vês. E pelo que sentes, dizes tu. Eu sorrio e concordo. Sim, somos assim.

A liberdade completa

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Stehn Raupach

Dormes dourada e despida. Dorme também o continente: o amor em repouso, um lombo animal na espuma. Nu, quero esse nome que te oiço na boca e esse mapa de veias onde não me extravio.
O amanhecer, que nos deixou a noite com as suas mordidelas, completa a liberdade entre os dois, vida há pouco começada.

Parte 2

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Uma parte de mim é todo o mundo, outra parte é nada: fundo sem fundo. Uma parte de mim é múltipla, outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim é permanente, outra parte encontra-se de repente. Uma parte de mim é apenas vertigem, outra parte, linguagem. Uma parte de mim pesa e pondera, outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta, outra parte deslumbra-se.

Estas colinas

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Brett Weston

Vejo-a, e põe-se perante mim, definida, imutável. A sua realidade, a minha, a nossa, leva-me mais longe. É a mulher entre as outras: surpreende-me. Semeia a manhã. Mostra-me nos olhos todos os céus de manhãs remotas. Tem nos olhos um objectivo persistentente: a luz mais limpa que alguma vez teve o amanhecer nestas colinas.

Encontro II

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Daniele Buetti

Estas colinas que formaram o meu corpo e o sacodem com tantas recordações, abriram-me o prodígio de quem sabe que a vivo e a compreendo em mim.
Encontrei-a uma noite: na obscuridade do final de verão, em redor do aroma destas colinas, mais profunda que a sombra. Ouvi a sua voz, uma voz de tempos perdidos. De alguém encontrado.

Fala o vento

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O vento falou toda a manhã uma língua extraordinária. Fui hoje com ele. Estremeci as árvores. Fiz espuma no rio. Levantei areia. Entrei pelas finas rendinhas. Tu sorrias para mim.

Ele não

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Alexander Rodchenko

Aquelas duas imagens entraram-lhe pelos olhos como a instantânea percepção da felicidade absoluta e sem condições. Ficariam consigo. Esta era a felicidade. Há quem o descubra depois, quando já é demasiado tarde e se torna, para sempre, um exilado: a milhares de quilómetros daquela imagem, daquele som, daquele aroma. À deriva. Ele não: continuava a caminhar.

Tu, a minha terra

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É a luz, a que abriu os meus olhos, ligeira como um sonho, tranquila em cores delicadas sobre as formas das coisas. O encanto daquela terra plana, extendida como uma mão aberta. O susurro da água que alimenta o que a vida ainda não corrompeu, o futuro que espera como página branca. Tudo regressa vivo à mente, irreparável com o andar do tempo. Raíz de tronco verde, este amor primeiro, esta minha terra nativa.

Tempo #7

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E agora, são os teus olhos: os olhos onde guardas o amanhecer; onde mato a sede. Estão mudos os lábios já beijados por uma vida nova. E um bater de coração e um peito amanhecido. Depois? Depois, a mão: a mão marcada pelo fogo.

Esta nova vida. Sim: outra vida. Distinta. Uma árvore: algo que olha o tempo, por uma eternidade.