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A mostrar mensagens de Março, 2012

Em possibilidades

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Não envergonhes aqueles que declaras vergonhosos. Não subestimes quem não tem vergonha. Torna-te no que não te atreves; não tentes explicar o que sentes. Respira profundo, estende a tua mão ao inalcançável; fecha os olhos, abre os ouvidos, aprende a festejar o silêncio e sonha.
Deixa a escuridão sentir a luz, deixa a luz escapar à escuridão, não sonhes com energia potencial. Digere o remorso, torna-te intocável e alimenta-te do teu próprio conhecimento.

A natureza do vento

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Lâminas afiadas de relva voam no vento, o vento é como muitas coisas, emoções, árvores; o vento não tem vergonha, não justifica o que faz, não se arrepende; o vento é o vento, é a sua natureza.

Como alguém que bem conheço

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Durante os últimos cinco anos a sua vida não tem seguido qualquer rumo fixo. Indo de nada a nada, sem dono nem destino, sem refugio nem bússola. À deriva. Empenhado na inútil fuga de si mesmo, em busca de um lugar onde cair vivo. Bebendo álcool e fumando charros e enchendo copos e beijando lábios e lendo livros e escrevendo textos, em geral bastante maus, há que reconhecê-lo. Digamos que queria ser uma espécie de Kerouak. Experimentou quase todas as drogas disponíveis.
Uma vida em perpétuo movimento, a travessia contínua da cidade, saídas a horas intempestivas, encontros em lugares inesperados, perseguições, enganos, traições, vinganças, caras novas, gente nova, camelos, caramelos, charros, idas e voltas, nenhum lugar seguro, nenhum dia igual ao outro.

A manhã

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Acordo dorido de não ter ficado nesse espaço. Uma ilha não inscrita em nenhum mapa, uma célula doente de ignorância, um mundo asfixiado em miniatura, uma humanidade avançada, em fogueiras homicidas.
Uma só tábua, sem naufrágio sequer, lutando por alcançar a costa e animada apenas pela recordação. Morro de sede e fome enquanto desperta o dia. Eu estou abaixo, debaixo da história sepultada em velas apagadas. Submerso em humores subterrâneos e em cinzas de ossos, sou o ser que não fui, o que não pude, o esquecido, mas existo. Dentro tenho alguém que me chama, sem me nomear. Dou-me conta, dou-me conta, eu existo.
Amanhã desperto, a cantar.

Moderno

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Exijo um tipo de sociedade em que o recolhimento, o retiro, seja um direito natural. Acuso o mundo moderno de ter invadido a minha solidão, de ter introduzido nela a política e guerras totalitárias. Como tal, vejo-me obrigado a exigir que se transforme o mundo. E não me digam que tal exigência seja desmedida: ela constitui a condição básica da sua existência.
É muito difícil para mim aceitar esta tarefa, que não implica qualquer agradecimento: manter-me aparte e agir como intermediário; comunicar algo tão essencial como queijo e vinho.


Um milhão apenas

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Em sentimentos, em silêncio, sem razão ou matemática ou mapas-mundo, apenas um milhão de pensamentos tocados pelo desejo e memórias fantasiadas; navegamos à vista, um quadro em movimento, pintado ao amanhecer, sem palavras, sem jogos.

Ser dois

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Ser um insecto quieto sobre uma flor, a felicidade de uma hora. Ser uma nuvem, a soprar tons de anil, sombreando montanhas, apressando-se ruidosamente em vales profundos onde as correntes guardam trovões pungentes e arcadas de névoa. Ser uma onda fragmentando-se na areia e abandonando lentamente a terra. Contar histórias de grutas de coral meio escondidas.
Cedo morrem as flores; os insectos vivem um dia; as nuvens dissolvem-se em chuva; apenas as ondas permanecem neste não permanecer.

A janela

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Ninguém pode enjaular os olhos que se acercam de uma janela, nem proibir que percorram o mundo até aos seus confins. Nos claustros, cozinhas, estrados e gabinetes da literatura universal existe uma janela fundamental à narrativa, e também nos quartos de hotel que pintou Edward Hopper. Alguém que lê um livro ou que estava a falar com um amigo, espreita pelo vidro, levanta uma persiana, e os seus olhos começam a fugir, pássaros em debandada que nenhum ornitólogo conseguirá classificar, nenhum caçador matar, que levantam voo com destino ao lugar incerto de que apenas se sabe estar longe.

Ser um

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Ser uma planta em equilíbrio perante o sol, curvando-se ao passar do vento; segurando aromas como um copo em jantar de amigos, a fragância de um dia solar.

Ela

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Já viste árvores de luto atear fogo. É a melhor forma de ser brilhante, deixar a madeira dançar entre mundos, os exércitos de homens marchar na sombra, o prazer e a luxuria soltos.

Ela, de vigor lunar e coberta de poeira âmbar, deixa o seu rosto ser beijado pela chama.
“Deixa o teu rosto ser o meu templo.”