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A mostrar mensagens de Outubro, 2010

Espera II

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A Terra, com os seus milhares de vozes, falava de ti. Ventos doces e folhas que sussurram; escorre a luz solar, o dourado cintillante e o seu respirar balsâmico. Os teus olhos abertos com as águas pluviais e a sorrir perante o céu chuvoso de azual suave, com toda a beleza que neles derrete. O amanhecer e o anoitecer terminam na tua face.

Espera

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M.J.Torgal

Muitos e muitos um dia antes de nos termos conhecido, eu sabia que alguém caminhava no mundo sozinho, esperando de longe a pessoa amada; era eu o escolhido no mundo para a coroação dos mortais, e iluminar-me nos seus olhos.

De olho em lágrima, ouvia o cantar nocturno da esperança e, tacteando a escuridão, toquei-lhe nas mãos. As mãos que aquecem o mundo.

O amante ido

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Quando estavas aqui, enchia a casa de flores. Agora foste – apenas um sofá vazio ficou. O sofa onde não consigo adormecer. Passaram três anos desde que foste. O teu perfume ainda continua por aqui. Onde estás tu?

As folhas amarelecidas desprendem-se do ramo, a lágrima, o orvalho cintila branco sobre o verde musgo.

O quarto vermelho

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O pequeno quarto forrado de vermelho, a luz ténue de vela e ela ao meu lado na cama que vibra, estremece, metade da noite. Eu dormito e ouço, dormito novamente e ainda, apesar de não o ouvir, o seu sussurrar como a chuva, cai, cai sobre o meu ouvido. E ainda ao meu lado, com o calor de uma noite de Setembro, eu sinto o seu corpo sob os lençóis a queimar-me os membros da nuca ao calcanhar.

Vejo o seu perfil erguer a sua linha acima do cabelo, afastando a almofada que partilhamos.

Da leveza

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Fernand Fonssagrives

Os teus beijos, e o modo como te enrolas nos meus braços e em meu redor, deliciosamente dentro e fora, indissociavelmente, como fio emaranhado; forte abraço e beijo longo, a felicidade nítida. Insaciavelmente apaixonado. Amar assim sendo assim amado, ávido pelos nossos dias.

Aninhas-te perto, e manténs os meus dedos no teu peito; deito-me e sonho acordado, sinto o compasso e o calor do bater do coração, a sintonia com o meu sangue.

A carta III

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"Estamos agora separados – sento-me aqui nu, anseio o beijo. O meu corpo a pedir o teu toque. Entrego-me livremente, teu uma vez mais e apenas para sempre." Não havia nenhuma assinatura, apenas as palavras, "Por um toque selado," e a impressão de um dedo do escritor.

Redobrei cuidadosamente o papel em volta da mecha de cabelo, deslizou de volta para o envelope e regressou ao seu lugar empoeirado sob as tábuas do soalho. Por vezes pergunto-me se nunca se terão encontrado novamente. Só espero que tenham.

A carta II

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Henri Cartier-Bresson

Senti que tinha invadido a privacidade do casal, um voyeur de um evento ocorrido há quarenta anos atrás. Despertou-me a curiousidade, continuei a ler.

"Senti tanto a tua falta depois do nosso ultimo encontro – é sempre tudo breve demais quando estou contigo. Ensinaste-me o meu corpo, permitiste desencadear a paixão, acendes-me para lá da fértil imaginaçâo."

A carta I

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O envelope amarelado encontrado debaixo de tábuas soltas, chamou-me. Apanhei-o, soprei o pó, li o nome.

As minhas mãos tremiam enquanto tirava a carta dobrada, abri-a lentamente, uma mecha de cabelo caiu no chão. Um pedaço da história de alguém prestes a ser revelado, escrito numa única folha datada Junho 20, 1971. "Querida Maria," começava. "Sento-me nu perante a minha máquina de escrever, à procura de palavras e de chaves para colocar no papel."

O beijo VIII

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Richard Avedon

E podem culpar-me por eu o ter feito? Eu não sinto o mais pequeno arrependimento por este beijo roubado. Os olhos brilhantes que me digam isso: não rouba quem leva um beijo. Deixa a natureza em ti sussurrar o consentimento. Não somos todos feitos de pó? E tu, tu és onde me moldo.

Cai agora o olhar revelador, até eu me curvo para não o perder; nem aos lábios que antecipam o início do desejo.

O beijo VII

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Brilho lacrimal nos olhos de castanho suave, apaixonado pela esfera rebelde, persegue-a um suspiro. Passaros em árvores dispostos, que ninguém duvide da organização harmónica. Beijam-se, sem ruído. A sua face ardente; fala sem ressentimento: se o vento te beija, porque não eu?

Para isto foram feitos os nossos lábios. Que outra coisa senão a rara devoção? Deverá ser paga alguma coima a título de arrebatamento?

O beijo VI

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Eu vim de ti. A tentadora maçã que vira a sua face para mim. Toda a natureza desde o primeiro raio a beijar o orvalho, a beleza da primeira aurora, quando as palavras são ditas e acorda o sentir. O rio ainda dorme sob um véu nocturno de neblina; arrasta-se suavemente, ergue o véu e deixa-a beijada.

Beijas a terra e sorris, acariciando vale e montanha; com mais ardor enquanto o sol te beija a outra face e segue para oeste. Estás agora sobre a montanha de vapor vestida.

O beijo V

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É suave esta, é subtil esta; a veloz vibração de uma ave. Agarra-se, nada até à margem onde ela dorme. Quando o aroma se liberta, quando os lábios encontram o caminho, os teus lábios. E nenhuma música sabe todo o caminho.

O beijo IV

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Doce inalar de cada suspiro, enquanto corpo com corpo se une em delícia encontrada, recebida e entregue. Para mim a grata prova desses teus beijos; o beijo rápido ou prolongado, feroz, suave, em igual prazer. Mas nota, que sejam todos teus. Com o reembolso dos teus lábios; variante arrebatar que deles flui, como variants a conferir.

Deixa acontecer o primeiro, o imutável, e observa essa lei pela qual se expressa a fortuna: "por cada beijo oferecido, cada um deles pode em troca receber outros tantos. São as reinvidicações dos vencedores, a cada amantes aplicadas."

O beijo III

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De lábios ardentes beijos que queimam. O prazer de beijar esses olhos que captam olhares de amor correspondido; colados à face que brilha, o peito, ombro ou o pescoço arrepiado. A paixão a concurso, e ver os traços do nosso impeto, a floração, lábios que se rendem e dardejam o tremor da língua – a incomparável felicidade.

O beijo II

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A boca, meio arredondada para uma canção, estremece ao inspirar; eu já me encontro em ti perdido. Os lábios, de carne tingidos, aos meus que estremecem: rapidamente estes lábios os meus encontram, com a tentadora diversão; e assim tudo começa.

É assim a concessão de um beijo? O sentir não é mais do que o acender no corpo de um fogo não transitório, um desejo inflamado.

Vento

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O vento que se mistura nos ramos ou em parte deles tem menos de súbito que o desejo dos seres que o iniciam, de um ao próximo e mais longe. O movimento suave da terra e oceano, elevam-se partículas, prazer e vida dirigem o seu movimento a algo mais que o desejo.

Intemporal

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Karine Leger

Doce, ferveroso, em pleno voo. O amor como moda diária: tudo, sombra, música, perfume e luz, vincula a paixão. Enquanto formos fiéis ao sentir, usamos e elevamos a nossa quente desrazão, realizamos os nossos votos e reservamos a próxima temporada com carácter de intemporalidade.

Árvores

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Não estou certo de o conseguir transformar em palavras, mas deixa que sejam árvores a dizê-lo em folhas perfumadas de fogo, elas pedem beijos e sorrisos como os campos de verão o fazem à chuva. Deixa-me espreitar o brilho da confissão.

As minhas árvores, contam-lhe toda a ânsia de um sentir quando chega ao seu destino; e dizem-lhe, árvores, que os meus lábios e olhos procuram agora o arrebatamento de um beijo seu.

Cuidado

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A quilómetros de ti, viro e encontro-te. E o teu olhar e a ondulação do teu vestido, o teu modo inesperado de te aproximar e falar, e o aroma do teu cabelo. Tudo para mim real como chuva num tórrido dia de verão.

Encontro-te, em movimento natural, avanças na minha direcção... Cuidado, eles ainda escutam, eles irão olhar, estes outros, eles irão ouvir quando a tua mão tocar o meu ombro. Eles que fiquem com o seu próprio cuidado que eu cuido de ficar contigo.