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A mostrar mensagens de Março, 2013

A Conformidade do Rebanho

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E veio então à mente, como operar a minha própria estação, facetas de degradação, ter a astúcia de aceitar. Vagueava o olhar, movia-se tudo rapidamente. Cercado, coberto pela vontade de sobreviver para escapar ao comum, impedindo o desastre, tentando desenterrar-me.
O reservatório da esperança, a metástase do sacrilégio excedente lentamente drenada pelo comum, a conformidade do rebanho.

Instruções de Voo

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Abria os seus braços na esperança de voo, apanhando o vento e segurando-o bem. Esticando como uma vela a cada subtil soprar, vencendo a gravidade sem margem de erro, voando para lá da humana possibilidade, para o improvável, e entrando no domínio da liberdade sem peso. Imparável. Acima das nuvens de um céu em tons de laranja, sobrevoava dia e noite, daqui a uma eternidade ao virar das estrelas. Era um cosmonauta a flutuar que deixava o mundo para trás.
Vivia a aventura como um sonho épico, desvinculado da racionalidade convencional. Encontrava-se a dançar por entre nuvens, circum-navegando o universo, orgulhoso da sua própria imprudência. Assistia a revelações de proporções astronómicas na primeira pessoa. 

Há um limite

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Deveria tê-la beijado enquanto ela se resguardava, mas continuou centrado em si mesmo: ele, um falso nobre, um idiota com decisões sóbrias.

Ela deveria, com um adeus e sem um bom dia para futuras anedotas ou narrativas datadas, tê-lo confrontado com todo o seu entulho que, no lugar da honestidade, constituía o seu carácter.

Não posso

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Não posso escrever sobre ti uma verdade superior a ti mesma. Não que seja incapaz por natureza mas, a tua verdade, já a escreveste. E porque tu escrevias para ser lida apenas depois de morta, porque a li contigo morta, a fiz minha, essa verdade é a mais forte de todas. Não poderei ir mais além. O que guardo de ti, e que só a mim diz respeito, não é da ordem da verdade mas sim da física: os teus joelhos, sabor de vinho na língua, perfume nos braços, olhar e voz que me abrasam; não se apagarão. Isso é só meu.

A noite leva-me a luz, objectos que não se vêem, intuem-se. E o silêncio é o que cai quando tudo se sabe e nada se espera.

À partida

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Os teus olhos verão a luz de céus distantes: irás suportar o peso da imagem viva - a tua terra nativa- tal como a pintas em gloriosa falsidade; cursos de água solitários, rochas solenes, aves de rapina em círculos perfeitos.

A traça humana em todo o lugar, caminhos, casas, túmulos, ruinas, do vale mais profundo até onde a vida se encolhe ao respirar rarefeito. Olhas tudo isto, até que as lágrimas te turvem a visão, e tentas manter o antes. A falsidade do brilho, da imagem tratada e composta, continua a desaparecer.

Mãe

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A árvore em frente à sua casa cheirava-lhe diferente a cada manhã. Por vezes um aroma como os cabelos da sua mãe. Outras vezes levava o cheiro das flores emprestado; e outras ainda cheirava como de regresso de uma longa caminhada.

A árvore em frente à sua casa tinha diferentes cheiros, como as pessoas crescidas.