Amanhecer



Como uma névoa, como uma chama branca, dona de si mesma, do seu nascimento, do seu pulso. Um pouco mais além e mais além até tocar as rochas. Lenços de sol sobre a cauda; chuva de quartzo; silenciosa.

Um movimento denso; mergulha-o no seu corpo. Profundo. Renasce. Lento e luminoso. Um pouco mais além, mais além, estremece o toque. Suavemente, os troncos cedem e vão-se estendendo sobre a erva; inunda-se o amanhecer. Pesam menos as sombras, erguem-se os corpos. Uma chama dupla, um odor de rochas húmidas.

Comentários

Maria disse…
'se ao entrares em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes...'

Sou eu, a amanhecer...
Contigo.
Damien disse…
Ignoro o que seja a flor da água
mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,
entra nu pela varanda,
o corpo ainda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:

então é como se na sua boca
um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,
até ao fim do mundo,
até amanhecer.

[Eugénio de Andrade]

Somos nós.

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