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Olhar

Esses minutos tão importantes, em que nos sentámos, em que nos sentimos. Apenas uns escassos minutos. E lá estavas, no mesmo sítio do meu olhar. Sorri para mim mesmo. Mesmo que fosse por uns escassos minutos. Fiquei a ver-te afastar.

Um fogo

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Demónios pessoais! Isso era eu hoje, todo o dia. A lutar pela minha vida enquanto me tentava concentrar no trabalho. Depois, enquanto terminava uns textos sobre, hum, demónios pessoais, tive esta sensação estranha. Senti… Senti a minha própria força. Foi como isso, mas em vez dos meus músculos era o bater de coração. É um músculo? Não, um fogo. Não estou certo de ter causado grande dano nos meus demónios. Mas acho que eles ficaram aliviados ao espancar-me.

A Conformidade do Rebanho

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E veio então à mente, como operar a minha própria estação, facetas de degradação, ter a astúcia de aceitar. Vagueava o olhar, movia-se tudo rapidamente. Cercado, coberto pela vontade de sobreviver para escapar ao comum, impedindo o desastre, tentando desenterrar-me. O reservatório da esperança, a metástase do sacrilégio excedente lentamente drenada pelo comum, a conformidade do rebanho.

Instruções de Voo

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Abria os seus braços na esperança de voo, apanhando o vento e segurando-o bem. Esticando como uma vela a cada subtil soprar, vencendo a gravidade sem margem de erro, voando para lá da humana possibilidade, para o improvável, e entrando no domínio da liberdade sem peso. Imparável. Acima das nuvens de um céu em tons de laranja, sobrevoava dia e noite, daqui a uma eternidade ao virar das estrelas. Era um cosmonauta a flutuar que deixava o mundo para trás. Vivia a aventura como um sonho épico, desvinculado da racionalidade convencional. Encontrava-se a dançar por entre nuvens, circum-navegando o universo, orgulhoso da sua própria imprudência. Assistia a revelações de proporções astronómicas na primeira pessoa. 

Há um limite

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Deveria tê-la beijado enquanto ela se resguardava, mas continuou centrado em si mesmo: ele, um falso nobre, um idiota com decisões sóbrias. Ela deveria, com um adeus e sem um bom dia para futuras anedotas ou narrativas datadas, tê-lo confrontado com todo o seu entulho que, no lugar da honestidade, constituía o seu carácter.

Não posso

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Não posso escrever sobre ti uma verdade superior a ti mesma. Não que seja incapaz por natureza mas, a tua verdade, já a escreveste. E porque tu escrevias para ser lida apenas depois de morta, porque a li contigo morta, a fiz minha, essa verdade é a mais forte de todas. Não poderei ir mais além. O que guardo de ti, e que só a mim diz respeito, não é da ordem da verdade mas sim da física: os teus joelhos, sabor de vinho na língua, perfume nos braços, olhar e voz que me abrasam; não se apagarão. Isso é só meu. A noite leva-me a luz, objectos que não se vêem, intuem-se. E o silêncio é o que cai quando tudo se sabe e nada se espera.

À partida

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Os teus olhos verão a luz de céus distantes: irás suportar o peso da imagem viva - a tua terra nativa- tal como a pintas em gloriosa falsidade; cursos de água solitários, rochas solenes, aves de rapina em círculos perfeitos. A traça humana em todo o lugar, caminhos, casas, túmulos, ruinas, do vale mais profundo até onde a vida se encolhe ao respirar rarefeito. Olhas tudo isto, até que as lágrimas te turvem a visão, e tentas manter o antes. A falsidade do brilho, da imagem tratada e composta, continua a desaparecer.