"Já a luz se apagou do chão do mundo, deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei misturar-me aos duendes na floresta. De máscara perfeita, e corpo ausente, a todos enganei, e ninguém nunca saberia que ainda permaneço deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te como quem, tendo sede, vê na água o reflexo da mão que a oferece, seria folha de árvore ou sério gnomo absorto no silêncio de uma rima onde a morte cessasse para sempre."
Cada vez que me sinto extraviado, confuso, penso em árvores, recordo o seu modo de crescer. Raízes e copa com a mesma medida, hei-de estar nas coisas e sobre elas. E logo, quando se abram caminhos e não saiba qual seguir, não sigo um qualquer ao azar: sento-me e aguardo. Respiro com a profundidade que respirei no dia em que nasci, sem permitir que nada me distraia: aguardo e aguardo mais ainda. Fico quieto, em silêncio, e escuto-me. E quando me ouço, levanto-me e vejo onde me levo.
E veio então à mente, como operar a minha própria estação, facetas de degradação, ter a astúcia de aceitar. Vagueava o olhar, movia-se tudo rapidamente. Cercado, coberto pela vontade de sobreviver para escapar ao comum, impedindo o desastre, tentando desenterrar-me. O reservatório da esperança, a metástase do sacrilégio excedente lentamente drenada pelo comum, a conformidade do rebanho.
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deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre."
antónio franco alexandre
Beijo-te,
de ter ousado
na água amar o fogo."
[Eugénio de Andrade]
Beijo-te,