Inclina-se a cabeça



Inclinou-se um pouco mais. Suava de febre e na sua testa brilhavam pequenas gotas. Eu pensava: “Está muito mal. Não tem dinheiro. Não se pode por bem porque não tem dinheiro. Vai morrer porque de isso se morre em todo o mundo. Ainda que passasse o homem mais altruísta do mundo, morreria”.

Reuniu três euros. Decidiu tomar um café e entrar num sítio quente. A ver se melhora. Um café vazio e mal iluminado. O balcão ao fundo, de parede a parede fechando uma esquina, com o empregado mais velho sentado porque sofria do coração, e apenas se levantava para os bons clientes. Apenas esteve um momento; o suficiente para tomar o café. Ao sair tudo continuava igual: o velho atrás do balcão, olhando para os seus pés inchados. O som e a luz pareciam ir desaparecer. Olhou uma última vez, como para uma má recordação, negra e triste. No passeio, sob as árvores, quis-se sentar. Procurou a árvore certa, e apoiado nas suas costas, desatou a chorar. Ao baixar a cabeça, caiu-lhe uma lágrima. Chorava sobre os joelhos, sobre os punhos fechados na terra.

Comentários

Maria disse…
Cresceu uma árvore à minha frente.
Cresceu para dentro.
Suas raízes são veias,
nervos, seus ramos,
Suas confusas folhas, pensamentos.
Teus olhares incendeiam-na,
e seus frutos sombras
são laranjas de sangue,
romãs feitas de lume.

Amanhece
na noite do corpo.
Ali dentro, à minha frente,
a árvore fala.

Acerca-te. Ouve-la já tu?

[O.Paz]

Tudo,
Someone... disse…
Existem certas coisas que fazem todo o sentido, existem palavras que transmitem uma beleza extrema, existem partilhas, pensamentos, entregas que nem todos conseguimos alcançar...isso tudo acontece aqui, neste blog, construido por dois seres fantásticos.

beijos
Damien disse…
Tantas palavras… para dizer o possível de tanto sentir
palavras como corpos gestantes, revelando, desnudando,
quantas vezes se erguendo como muro
tantas vezes nos fartando, nos faltando, sobrando
à mingua de não nos termos e fazermos com as palavras
a vez do corpo, do coração, do suspiro, do sorriso,
do toque, do abraço, da entrega, do desejo, da saudade.
[Angela Santos]

Ouço-te já, eu.
Tudo,
Damien disse…
A intuição liberta a inibição onde descansam os sonhos, cativando sem tentar. O medo é deixado só, intocável, invisível, não sentido, sem sentido. Um anjo caído, um sonho.

Sem sentido, faz sentido.

Um dos seres ditos fantásticos (assegurando que o outro o é), agradece-te profundamento o elogio. Também tu, Someone, és especial.

Beijos,

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