Ainda maior



Desde sempre gostei de respirar a atmosfera das partidas da primeira hora da manhã, fingir que também vou deixando tudo para trás de mim. Algo como uma falsa fuga. Mas aquela vez o jogo não funcionou. Tropecei numa ideia fixa: como poderia eu desaparecer, mudar de vida, sem ter tudo catalogado em mim? Não encontrei nenhuma outro maneira de organizar toda a minha vida senão falando no amor que a (me) habita, a caminho de uma paixão maior que a vida.

Comentários

Maria disse…
e se alguém respirasse e cantasse uma palavra (maior),
e de súbito fosse respirado por ela?

AMO-TE como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria

roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão brilha na minha,
brilha inteira...
no toque entre os olhos,
na boca...

chama-me pelo teu nome...
toca-me
na boca sem idioma,

já és toda

estremeces

alimentos, mãos, roupas, bocas, bebidas, pêlos como auréolas de ambos os sexos,

todos os dias de todos os anos de todas as duas vidas.

H.H. in, A Faca Não Corta o Fogo

Toda.
Tudo, contigo.
Damien disse…
Alguém há-de saber de tanto fôlego junto.
Basta a mão direita para quebrar a água
misteriosamente, a mão
para devolver-me á fonte.
Não é preciso que seja raiada, essa pessoa
Leve e potente, só
que finque no meio da dança um pau em brasa
com a floração: quero que me pare, que me abra.
que use a chave da minha obscuridade.
Antes de me terem chamado com água dentro da pedra,
gosto amargo, unhas
e dentes.
A seda com que teci a malha entre pedaços humanos:
membros criando um espaço, respiradouros, anéis rudes
nas cabeças, uma
beleza viva.
Alguém há-de tocar-me com um dedo, alguém
há-de pôr-me um selo.

[H.H.]

Tudo, contigo.
Maria disse…
As palavras são incertas
e dizem coisas incertas.
Porém, digam isto, ou aquilo,
algo nos dizem.
Amor é uma palavra equívoca,
como todas.
Não é palavra,
é visão

O amor começa num corpo;
se é corpo,
logo se dissipa ao tocar.

Amar:
fazer de alma um corpo,
fazer de um corpo alma,
fazer um TU de uma presença.

Amar:
abrir a porta proibida,
passagem
que nos leva ao outro lado do tempo.

Amar é perder-se no tempo,
ser espelho entre espelhos.

Amar é duplo
e sempre dois,

dois é querer continuar o mesmo
e já ser outro, e outra.

Amar é ter olhos nas pontas dos dedos...

[O.Paz]

E mais ainda. Muito mais.
Tudo,
io disse…
a semana passada, ao partir de madrugada, senti que deixava atrás de mim a minha vida, o começo da minha vida. Perante os meus irreais 43 anos, quase 44, parece um exagero, mas não é. Quando surge o amor, maior e verdadeiro, acontece-nos final e realmente a vida. Beijo-vos, felizardos.
Damien disse…
Não há idades irreais, nem prazos para renascer, para que a vida nos aconteça.

Sim, amiga io, somos felizardos e mais ainda.

Beijos grandes,

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