Que o homem é a mais nobre das criaturas, pode inferir-se de nenhuma outra ter contestado tal afirmação.
Ela mar
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Despimo-nos no carro. Ela estendeu-se de costas e eu permaneci sentado, contemplando o seu corpo moreno com os cabelos a brilhar sobre a areia, e desejando-a. É “ela”, de todas as formas e entre todas as coisas, o meu mar.
Se a morte deve terminar em conflito, respondi-lhe eu, essa vida miserável não pode ser vida. Pois quem poderia aguentar a escuridão sem um amanhecer? Essa tua vida é uma morte. Pedes aos santos, cujas faces artificialmente iluminadas te asseguram da sua grace interior; se ao menos eles podessem resolver as tuas questões e satisfazer os teus ansiosos desejos. Um brilho oleoso ilumina a tua fronte, enquanto te ajoelhas dizes: "'Esta vida para me encontrar com o Senhor.” Mas a palavra que ouves foi escrita pelos homens, é a verdade de uma igreja não de uma vida divina ou eterna; é a promessa por cumprir do triunfo da vida sobre a morte, feita a troco de pecados perdoados. Deve haver morte tal como existir o erro (não o pecado alimentado pela santa igreja), viver é a minha religião. Eu sei que esta mortal casa de barro se irá um dia dissolver e acabar por desaparecer. Digo eu, assim vivo, luto pelo que acredito, o que sinto por quem amo é a minha graça terrestre: conquisto assim ...
Henri Cartier-Bresson Senti que tinha invadido a privacidade do casal, um voyeur de um evento ocorrido há quarenta anos atrás. Despertou-me a curiousidade, continuei a ler. "Senti tanto a tua falta depois do nosso ultimo encontro – é sempre tudo breve demais quando estou contigo. Ensinaste-me o meu corpo, permitiste desencadear a paixão, acendes-me para lá da fértil imaginaçâo."
Comentários
sós e nús, desde sempre
embalados no próprio movimento
o seu olhar fixou-se para sempre
na aparição sem fim dos horizontes
como o animal que sente ao longe as fontes
tudo neles se cala p'ra auscultar
o coração...
porque o calor do sol não os consome
porque o frio da noite não os gela
e o seu corpo é só um nó
em busca de mais mar...
[Sophia M.B.A.]
ÉS.
Tudo,
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
[Carlos Drummond de Andrade]
Sim, és ela.
Tudo,