Carne trémula



Fixei os teus olhos, como um sedento fixa a água, mordi os teus lábios como um réptil a flor. Voltei a morder-te; e um prazer doce, sem dor, desfazia-se em ânsias de vida, numa felicidade frenética.
O tremer de uma beleza embriagada de desejo, e minha foi a tua carne luminosa.

Depois, sobre o meu peito, adormeceste tranquila como uma menina.

Comentários

Maria disse…
...
e tu viras vibrantemente a cabeça
e entre a tua cabeça e a minha a luz é tratada
segundo a maravilha

estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo

e o prodígio oh
do ar na luz revolvidos de um espaço para o outro,
e de repente entende-se
que um corpo é só um corpo: prova improvável, ou
impossibilidade, ou
esplendor, ou
que alta tensão! e diz-se:
toca-me, e toca-se, e os dedos
despedaçam-se, e aquilo em que se toca alumia-se
até ao intacto, o intocável

sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti sôpro até raiar-te a cara,
...
roupa agitada pela força da luz que irrompe dela,
veste-a, despe-a,
torna-te unânime com o ar e o fogo,
seda e carne, trabalha-as que luminotécnica,
roupa orgânica,
porque já no clarão de um strip-tease se fundira a terra toda

o fundo do cabelo quando o agarras todo para quebrá-la,
tu que perdeste o fôlego,
e sim respiras agora do sôfrego que foste nela,
perdes a fala quotidiana,
ganhas em tudo mas não sabes quanto ganhas

Heberto Helder in, A Faca Não Corta o Fogo

Amo-te assim.
Tudo,
Damien disse…
A palavra é uma estátua submersa,um leopardo
que estremece em escuros bosques,uma anémona
sobre uma cabeleira.Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua,mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada.Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos,os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.

[António Ramos Rosa]

Amar e muito, palavras que juntas e ditas assim estremecem. E nós com elas.

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