Respiro ao ver-te sorrir e vivo no teu abraço. Nada pode enjaular os teus olhos, nem proíbir que busquem o mundo até aos seus confins. Até que o próprio mundo esteja no teu olhar: o meu mundo.
Cada vez que me sinto extraviado, confuso, penso em árvores, recordo o seu modo de crescer. Raízes e copa com a mesma medida, hei-de estar nas coisas e sobre elas. E logo, quando se abram caminhos e não saiba qual seguir, não sigo um qualquer ao azar: sento-me e aguardo. Respiro com a profundidade que respirei no dia em que nasci, sem permitir que nada me distraia: aguardo e aguardo mais ainda. Fico quieto, em silêncio, e escuto-me. E quando me ouço, levanto-me e vejo onde me levo.
E veio então à mente, como operar a minha própria estação, facetas de degradação, ter a astúcia de aceitar. Vagueava o olhar, movia-se tudo rapidamente. Cercado, coberto pela vontade de sobreviver para escapar ao comum, impedindo o desastre, tentando desenterrar-me. O reservatório da esperança, a metástase do sacrilégio excedente lentamente drenada pelo comum, a conformidade do rebanho.
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o meu mundo.
[F.M.]
O nosso...
Tudo,
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!
Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram
Sobre um leito de terra, cinza e pó!
Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!
Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
– Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.
[José Régio]
Tudo, em ti.