Que o homem é a mais nobre das criaturas, pode inferir-se de nenhuma outra ter contestado tal afirmação.
A espera II
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A sua vida estava escura e fria como orvalho nocturno, à espera de algo que o acendesse. Esta era a sua música, de quem procura em vão encontrar alguém semelhante. Estava preso na montanha rochosa, dormente, aguardando um toque.
"Com dificuldade, avançando alguns milímetros por ano, abro um caminho entre as rochas. Há milénios que meus dentes se gastam e minhas unhas se quebram para chegar além, ao outro lado, à luz, ao ar livre. E agora que minhas mãos sangram e meus dentes oscilam, mal seguros, numa cavidade gretada pela sede e pela poeira, detenho-me para contemplar minha obra: passei a segunda parte de minha vida a partir pedras, a perfurar as muralhas, a rachar as portas e a separar os obstáculos que interpus entre a luz e eu durante a primeira parte de minha vida.
Meu corpo arado pelo teu há-de tornar-se um campo onde se semeia um e se colhe um cento. Aguarda-me do outro lado do ano: encontrar-me-ás como um relâmpago estendido na orla do outono. Afaga meus seios de erva. Beija meu ventre... Em meu umbigo o turbilhão aquieta-se: eu sou o centro fixo que anima a dança. Arde, cai em mim... Morre em meu lábios. Nasce em meus olhos. De meu corpo brotam imagens: bebe nessas águas e recorda o que esqueceste ao nascer. Eu sou a ferida que não cicatriza, a pequena pedra solar: se me tocas, o mundo incendeia-se.
Aguardo-te neste lado do tempo onde a luz inaugura um ditoso reinado... Ali fenderás meu corpo em dois, para soletrar as letras do teu destino." Octávio Paz
"Este é o orvalho dos teus olhos. Esta é a rosa dos teus vales. O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas. Tu estás no meio, entre a dor e o espanto da treva."
Cada vez que me sinto extraviado, confuso, penso em árvores, recordo o seu modo de crescer. Raízes e copa com a mesma medida, hei-de estar nas coisas e sobre elas. E logo, quando se abram caminhos e não saiba qual seguir, não sigo um qualquer ao azar: sento-me e aguardo. Respiro com a profundidade que respirei no dia em que nasci, sem permitir que nada me distraia: aguardo e aguardo mais ainda. Fico quieto, em silêncio, e escuto-me. E quando me ouço, levanto-me e vejo onde me levo.
Pisam a floresta escura, cuja primitiva disposição desde sempre projecta a sua sombra; ponderam a corrente e as marés do oceano, observam as variadas formas de vida que os rodeiam: as aves que assombram florestas e planicies, os peixes que nadam, os mares, os rios, as correntes e os ângulos das suas margens; espreitam a vida que decorre o espaço e o seu tempo.
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Meu corpo arado pelo teu há-de tornar-se um campo onde se semeia um e se colhe um cento. Aguarda-me do outro lado do ano: encontrar-me-ás como um relâmpago estendido na orla do outono. Afaga meus seios de erva. Beija meu ventre... Em meu umbigo o turbilhão aquieta-se: eu sou o centro fixo que anima a dança. Arde, cai em mim... Morre em meu lábios. Nasce em meus olhos. De meu corpo brotam imagens: bebe nessas águas e recorda o que esqueceste ao nascer. Eu sou a ferida que não cicatriza, a pequena pedra solar: se me tocas, o mundo incendeia-se.
Aguardo-te neste lado do tempo onde a luz inaugura um ditoso reinado... Ali fenderás meu corpo em dois, para soletrar as letras do teu destino." Octávio Paz
Amo-te,
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva."
[J.A.Baptista]
Tu estás em mim.