Contra-campo



A possibilidade de mudança tão distante, a raiva tão perto, a lutar para ser liberto. As vozes tão altas, deixam-me os sentidos a esgravatar por um silêncio solitário; ainda mais só do que as vozes altas. Gritos de ódio dentro de um enorme círculo, aprisionado por arame farpado.

A liberdade é quase impossível. Está por detrás da cela, da vedação electrificada e das vozes. Uma liberdade deserta, um campo que se move, ainda mais longe, provocando-me a coragem, tirando-me o medo que se aloja aqui. Não vejo porque o tenho que remover, apenas para o substituir por outro diferente. E no entanto, o campo é tão tentador. Seria louco que ficasse aqui.

Preciso de calma, preciso desses olhos que penetram este muro de impossibilidades.

Tudo aquilo que eu não sou, tudo aquilo que nunca vi, empurro-me firmemente contra a restrição farpada; o sangue flui destas feridas abertas, morrer para ser libertado. A dor não é nada, penso para mim mesmo, enquanto vejo o meu sangue espalhar-se no chão. O campo – tudo o que preciso.

Comentários

Someone... disse…
a dor física é por vezes tão insignificante quando comparada com outras que não deitam sangue. a liberdade atinge por vezes um nível tão grande que nos faz perder o nosso próprio controlo.
Damien disse…
sim, a dor física não é a pior das dores. não será o controlo uma forma de restrição de liberdade? por outro lado: sem controlo, como podemos usufruir da liberdade?
Someone... disse…
será uma restrição quando o controlo é de terceiros, não nos deixa usufruir da liberdade quando a falta de controlo vem de nós próprios. Será?
Mas não defendo que a liberdade seja a satisfação total de todos os meus desejos, sem olhar a meios nem a fins, sem ter atenção a terceiros.
Damien disse…
de acordo: a minha liberdade está intimamente relacionada com a do outro. longe de mim reduzi-la à satisfação dos meus desejos.

ser livre implica poder desejar, amar, partilhar,... enfim, tudo coisas que nunca me lembraria de fazer sozinho.
Someone... disse…
dizemos nós, seres humanos, na inocencia da ilusão, mas somos humanos, os verdadeiros seres do egoismo.
é claro que existem muitos desejos que implicam a existência de pelo menos mais um ser.
o ser livre implica tanta coisa!!!
Damien disse…
o desejo de partilha é egoísmo?
sim, a liberdade implica inumeras coisas. quanto aos humanos serem os "verdadeiros seres do egoísmo", isso é tão verdade como serem os seres que amam, odeiam, comem, respiram, ... os seres humanos podem ser o que bem entenderem. só não me parece correcto aplicar desta forma um único rótulo; as generalizações são sempre perigosas e com grandes margens de erro.

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