Limpeza
© Fernando Morgado Tenho falado, sobre as minhas caixas, as minhas memórias, as minhas pessoas. Sobre cada um, são diferentes, sendo nenhum o mesmo. Ao limpar, começo a abrir caixas, espreitando as que já não vejo há algum tempo, reclassifico. Não deito nenhuma fora, só as volto a embalar. Coloco novos rótulos, mudo-as de sítio. Continuam por perto. Mudo as minhas prioridades, ajusto a minha vida, quero-a melhor.

Comentários
e entre a Tua cabeça e a minha a luz é tratada
segundo a maravilha
estende a Tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
táctil, ininterrupta,
e a Tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo
e diz-se:
toca-me, e toca-se, e os dedos
despedaçam-se, e aquilo em que se toca alumia-se
até ao intacto, o intocável...
oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima...
sou eu que te abro pela boca,
boca com boca...
[H.H. in, A Faca Não Corta o Fogo]
Tudo, muito.
Contigo,
que estremece em escuros bosques,uma anémona
sobre uma cabeleira.Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua,mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada.Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos,os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.
[A.R. Rosa]
Sempre.
Contigo,